Os “poemas de juventude” foram escritos entre 1992 e 2012 e sobreviveram. Talvez devesse ter rasgados estes e mantido outros, ou doutra maneira qualquer, mas esta é a única possível agora.
Papoilas
Pelas papoilas vermelhas que vejo da varanda desta esperança atada
Quero dizer-te que o que sinto pela vida é vermelho, como o sangue, e tende a desbotar como o brocado.
Sei que me olhavas quanto colhi as pétalas desta memória sempre contrafeita, povoada de fantasmas e irremissões. Espero que guardes, nesse paraíso, onde tudo é igual, a vida que tive, quando fui feliz. Apaga-lhe os fantasmas, os erros, o sofrimento e a morte e deixa ficar as papoilas, imutáveis, nesse campo em que as recordo, nesse campo que guardo, vermelhas como eram as minhas esperança sobre o verde.
Sempre me faltou a objetividade, a clareza… vi a beleza, mas não lhe atribui o valor que tem; turvei tudo num mar de desespero.
Pelo sol ardente, pela galáxia inteira… ajuda-me primavera.
Lídia
Sentados à beira do rio sonho com uma Lídia que não és.
Há tumultos teus que se vêem mesmo nas águas paradas que é olhar para ti à beira deste rio.
És pior que o vento, pior que a tempestade,
No entanto,
Estás parada, imóvel, contida
Enquanto todo um rio de vida passa.
Tu,
Que não desaguas em lado nenhum,
És pior que a corrente
– Passas sem galgar muros, fragas, gargantas
E só a mim fere esse teu estado parado,
Mas dentro de ti és corrente tingida
De sangue do que te fere viver.
Dentro de ti há ódios, homicídios
Próprios de quem fecha à chave, numa caixinha,
Os raios, os ventos, os desejos e toda a vontade
De correr livre para um mar
Que nem é o fica no fim deste rio
Nem outro que fique em lado algum
Que se saiba.
Por isso, tudo o que vejo em ti, hoje,
São águas mortas, águas paradas…
Afinal és Lídia
– Águas mortas, águas paradas…
À beira de rio nenhum.
1998 – mais ou menos. As datas destes são calculadas de memória, não certas. Entre 2000 e 2014 não me recordo das datas, de todo. Todos os que não tem data são do novo século.
Este é o primeiro de alguns poemas inspirados pelo poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Fernando Pessoa, no heterónimo de Ricardo Reis.
Lídia I
Lídia à beira do rio
Que corre como se o mar fosse
Um lugar para descansar…
Lídia da indiferença
Sinto a tua presença
No encanto que não muda.
Estamos aqui os dois
Sabendo que depois
Nada mais há que um incerto
Mar ou deserto
A crescer dentro de nós…
Sei não poder guardar
A feroz corrente que passa
Mas solta o cabelo
E diz-me o segredo
do teu sossego,
Da tua graça.
Não tens segredos!
Tudo é claro e aberto
Se estás desperto
Para viver
E correr como um rio
Sem fim para a morte
Que é a nossa sorte
Como de tudo o que foi
E já nem dói.
Estamos aqui os dois
E não soltas o cabelo
Para não perder o novelo
Do fio com que te prendes ao momento;
Ao momento de saber
Que a querer até podíamos
Enlaçar as mãos e morrer.
Quem me dera
Quem me dera não ser humano, ser tudo menos ser humano. Quem me dera perdoar-me facilmente, sempre que erro…
Quem me dera não ser eu, todos menos eu…
Quem me dera acreditar na absolvição de ser eu…
Quem me dera apagar-me desta história…
Quem me dera ser uma gabardina ou um chapéu onde batesse a chuva… Quem me dera ser a resina dum pinheiro manso…
Quem me dera não ter sangue…
Quem me dera não ficar na paragem permanente do tempo e do espaço… Quem me dera acreditar em Jesus Cristo…
Quem me dera acreditar em milagres sem preço.
Salve
Salve a tudo o que desejo,
Impossível e imprevisto anseio
De viver simplesmente o que tenho
Dentro do meu coração estranho
À realidade do que é real
– Esta a causa profunda do meu mal.
Queria viver simplesmente o mundo…
Que me entrasse nas veias o prazer,
Este sonho vago de viver
Sem sentir nas entranhas do fundo
O latejar sempre presente
De toda a grande alegria ausente.
1998
Violetas
Tens a testa enrolada de tanto sonho vão.
Esperas na escada subir ao perdão
De teus dias violetas
Que sonhas enlaçadas, quase pretas
As roxas ou violetas que prendeste com a mão…
Teus dedos orações… Que a porta ao cimo se abra!
Bem sei, já deixaste o sopé da escada
Só repousa lá esquecido
Aguardando nenhuma hora, esse ramo perdido
De tudo o que quiseste,
De tudo o que sonhaste…
1996
Parto
Parto triste de sentir a vida dolorosa a arder em lágrimas que correm de ti que de mim secaram fontes em pedras duras de um deserto infernalmente frio onde escrevo esta permanente saudade de uma vida que não existe nem nunca existiu. Dói-me ver-te, dói-me ter a tua vida metida dentro da minha. Quero partir para não sentir, para não sentir nada, para não sofrer. Anseio, no entanto, impossíveis regressões ao ideal, que teria sido se tivesse sido bom, ao que afinal foi, a essa tragédia interior que se desenrola na cave mais funda do coração, que sempre irá comigo – esta maneira de ver a calçada e de a amar porque pisei nela.
O medo
Cadáveres da democracia (o medo tomou conta das ambulâncias, a secretária do diabo faz planos para o nosso enterro e, desterrados tememos o pior: nunca estar em terra nossa), a juventude vamos gastando sob o letreiro néon que diz: o trabalho liberta.
Neste campo concentrado do desgaste da hora, sem um deus do nosso lado, as grilhetas da mediocridade aferroadas aos tornozelos, uma cortina de ódio nos olhos, entregar-nos-emos ao desespero?
Poderemos gritar alto: “não sou um rato”?
Eles bem sabem que todos temos um ponto em que dobramos ou partimos.
Inspirado no “Poema pouco original do medo” de Alexandre O’Neil.
Mais tarde fiz outras versões.
Quando eu morrer
Quando eu morrer quero ser só pó, sem sangue… Quando morrer quero morrer para sempre. Não, não quero a eternidade, nenhuma eternidade… só a música efémera das bordas das tuas lágrimas salgadas, quentes correntes de mar onde te abraço no fundo do azul, sem dor dentro, no lugar secreto e reservado do seio; o lugar onde se forma a vida de onde não queria ter despertado para ter consciência, nervos, ossos, músculos, veias… Molha-me o pó de lágrimas e adormece-me ao som da música com perfume de rosas em cabelos molhados, para fazer ondinhas, ondinhas do mar, nesse arrepio de sentir a vida em mãos doces. Dá-me, dá-me um arrepio de Bem antes de meu corpo gelar e regressar à terra, ao pó das estrelas…
Sim, quando morrer quero morrer para sempre e não, não quero voltar, sempre igual, sempre a mesma,
sempre com a alma em chagas e chamas… não, não me dês sangue de Cristo… nenhum sangue, nem vida eterna.
Deus criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, do Bem e do Mal, da natureza cruel, não quero a tua criação, o voltar aqui e talvez a muitos lugares do tempo e do espaço: para sempre a mesma coisa, este veio da matéria, este desassossego do sangue, esta convulsão de vómitos, esta dor… E a beleza que vejo? E a música? E o arrepio… deixa, deixa tudo isso por favor… Não vês que nada vale a pena, que o nada é sempre melhor do que alguma coisa, que o vazio é mais viável? Simples, fácil, nem precisa compreensão… Não, não te sintas só, povoado de demónios… Sim o tédio… Entretém-se de outro modo. Cria só seres sem história ou desenhos animados. Deixa-me, ou explica-me as coisas. Não, não entendo nada… só o facto da matéria comer a matéria para se tornar em outra coisa… para quê? Para que os poetas vivam, porque a beleza só se vê de houver um contrário? O bem se tiver um mal, o prazer na dor, a estética no sofrimento? Deixa-me em paz… Dá-me um sono, um sono profundo e não, não quero mais isto… adormece-me já! Quero passar as tardes todas da eternidade a dormir. Não gosto de jogar às pedrinhas, já disse que não gosto! Não gosto de jogo nenhum que eu jogue. Cria futebol. Vê futebol. Deixa só os jogadores de futebol ou de outro jogo qualquer e vai vê-los para sempre, no estádio da eternidade.
Ao lado
Ao lado
Na beira
No beiral do telhado
Crescem as flores do jardim
São lírios do campo
E o lenço que caiu ao mar era branco
Em azul se tornou
Em sal se esqueceu
Na eternidade negra do abismo
Malmequer do beiral rasa
Sol sombra e horizonte
Lírios do campo
– Roxo veneno
Em cristal cortante
Como navalhas
Com o cabo do fim
O mundo quebrou-se no ar
Como o boião de vidro de rebuçados
da mercearia última
Jardim de pedras
Ao pé do abismo que se infiltra pela alma adentro
Flores semeadas no campo da explosão
Flores que são navalhas ou bifaces onde se jogam corpos e corpos à procura de emprego
Ou de melhor emprego
1995
A culpa
A culpa não é dos pedreiros
Dos simples marinheiros
Do governo e desgoverno
Da mentira de eu ser terno…
A culpa não é dos profetas
Nem dos magníficos poetas
A culpa não é da esperança
Que já só tenho em lembrança
A culpa não é do café
Nem da falta de fé
A culpa não é dos meus
Nem será culpa de Deus
A culpa é minha
Por enterrar fundo tudo o que tinha.
A culpa é de não ter coragem
De viver segundo a miragem
De tudo o que sou afinal
Em tudo muito desigual
Ao que se confina
Esta traça fina
De viva cor
Em que se tece toda a minha dor
Visão
Saindo detrás de um véu
Vi nosso senhor do Céu
Descer à terra,
Numa tarde romaria…
Vinha vestido de Prada,
Com a túnica limpando a estrada…
Carregado com a cruz de marfim,
Coroado com flores de jasmim,
Esteve entre nós aqui
Sandálias made in Italy.
Glosas à Liberdade
Ai que prazer
Não saber a tabuada,
Ter a conta sempre errada!
Matemática é maçada,
Quando não se aprende nada.
O Sol doira
Sem contar
O rio corre, bem ou mal,
E sempre desigual.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente imprecisa
Como eu fica indecisa…
Viver é uma linha distante da recta.
E ganhar pode nem ser cortar a meta
Ou pode ser isso e coisa nenhuma.
Quanto é melhor um mar de espuma,
Procurar um Sebastião,
Quer se encontre ou não!
Bom é o ouro, os diamantes, a prata…
Mas o melhor do mundo é ter muita lata,
Hotéis, carros, mansões,
E alimentar a pobres os leões.
Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de equações,
e continua a patrocinar publicações.
II
Ai que prazer
Não cumprir o dever
Ter uma notícia em primeira-mão
E dá-la ao cão!
Informação é maçada,
A notícia não era nada.
O sol doira
Porque não lê o jornal.
O rio corre, bem ou mal,
Sem directo para o canal.
E a brisa, essa,
Por ser naturalmente matinal,
Se tem tempo, não interessa…
Notícias são palavras, com ou sem tinta.
O acontecimento é coisa indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, mesmo sem bruma,
Esperar ganhar um milhão
Quer se ganhe ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas já não se pode dizer que são também as crianças…
Flores, música, o luar, e o sol transtornado
De alteração declarada em comunicado.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não via o telejornal
E lançou uma marca universal…
Inspirados no poema “Liberdade” de Fernando Pessoa
Glosas à Europa
A Europa jaz
Morta…
o cotovelo esquerdo pousado,
em paz,
mas torta,
viu o touro hipotecado…
A Europa jaz.
Estará a dormir?
Estará em paz?
Recostada no cotovelo
direito, até nos faz sorrir
as voltas que dá o novelo…
A Europa jaz
Prostrada,
Fitando o mar,
Em lágrimas marejada,
Está cega de chorar…
A Europa jaz
Morta,
Com o rosto encarquilhado,
Fitando o mundo tão velho,
Tão errado,
Como o que vê ao espelho.
A Europa jaz
Morta,
Mas ninguém dá por isso.
Pensam que só dorme
Sob a firma do compromisso,
Quando afinal está conforme
Ao seu rosto, antigo, engelhado
Com que fita o vasto mar
Onde se inventou o fado…
Como já não havia touro
A Europa não foi raptada
Apostem o vosso peso em ouro:
A Europa nunca existiu,
A Europa foi só sonhada,
Ou está presa por um fio.
2012
Inspirado no Poema “A Europa jaz, posta nos cotovelos”, de Fernando Pessoa
Estação
Estação deste comboio que parte e me deixa. Raramente tenho glória. De resto nem sei se espere. Perdi-me numa tarde em que te esperei na estação.
Depois tiraram-no para longe de onde nunca mais voltou.
Então que me dizes? Queres ou não queres vir?
Havia pessoas de chapéu a falar e uma luz misteriosa que emoldurou numa imagem todo esse momento em que esperei.
Afinal vieste de autocarro, como sempre havias de vir, mas assim não quero. Espero-te na estação que já não existe. Nas linhas escritas deste desejo em que fui pela primeira vez para sul, pensando que era norte, sei lá.
Há um piano em que te quero. O senhor do chapéu falava em vacas – ruminantes. Comprou duas por quarenta mil reis, ou coisa assim. Não, na altura não eram os contos os dinheiros fora de uso mas difíceis de deixar de usar em fala. Foi há muito tempo, ainda havia serras inacessíveis e comboios.
No lugar não havia música mas um piano inalcançável em que tocavas realejos de esperança nas cascatas do sorriso do homem que comprou as vacas. Esse dia foi poesia que eu nunca soube dizer, só guardar.
O comboio estava muito atrasado, ainda só ia lá no Tua.
Mãos nos bolsos e o chapéu… o brilho e essa música de um piano que tocava brisas quentes e douradas. Sentada, espero-te ainda, numa estação que já não existe, onde não para comboio nenhum.
Sou um urso
Quando não tenho vontade de me vestir de urso seduzo?
Sim.
Pelos visto sim!
Não é algo que me seja natural.
É mais natural vestir-me de urso.
A maior parte dos dias quero ser sozinha.
Em outros quero companhia.
Um dia quero só a tua companhia
limitada,
claro é esta ideia
porque nunca me vês como sou, nunca és da minha companhia
e soldado solitário não vai à tropa.
Podes é encontrar-me directamente em guerra.
Chuva miúdinha
Sempre gostei dos dias de chuva miudinha
Em que vou pela que não é minha
Com as gotas a cair na face
Esperando, sem esperança, o desenlace.
Sei que tudo termina, tudo cai.
Vou pela rua já molhada
Com o brilho na face caiada
De fera, férrea vontade que não tenho
E a chuva transforma em brilho,
Esta representação que mantenho.
1992
Postal
Belo, selo de Primavera
Postal ilustrado de hera
Região nacional de agonia
Campo infinito de alegria
Saudade inversa de ser
Sonho de hoje de como será amanhã viver
Ao teu lado, o outro dia,
Época em que de ti havia
Beijos e abraços,
Grandiosos e imponentes laços
Que me prendem em desespero
Ao futuro e presente medo
Que em rendas se desfaça
Este estar atado a ti
Que não passa.
Impossível
Dedos que debicam o coração…
Impulsos foram de qualquer razão…
Ânsias de um amanhecer impossível…
Formas de um viver incrível…
Paraísos naturais no deserto…
Estilhaços que entram em desconcerto,
Na inerte imensidão de estar
De olhos fechados sem olhar
O sol que se ergue;
Um sol quente entregue
A sentidas vãs horas
Com todas as demoras,
E do outro lado
O livro do impossível prostrado,
Como um bloco,
Dentro do qual me coloco.
1999
Dever
Devias ter acertado,
Devias ter-me mandado rosas
Quando pedi rosas.
Devias ter assinalado esta veia.
Devias ter escrito com sangue
O meu coração na árvore do jardim.
Agora sento-me no jardim,
Sem Cristo e sem ti.
Não! Já não me sento no jardim.
Já não penso em ti.
Pelas papoilas…
Colhe as papoilas.
Dá-me as papoilas.
Devias rimar melhor…
Devias ser conforme.
Devias estar certo.
Devias nunca errar.
Devias acordar cedo.
1996
Tenho uma pedra guardada
Veio a noite dos contornos
Da delimitações de sombra
Das luzes de pérola
Em pós de lua
Olho o lago fundo
De azul negro.
Aproxima-se de mim o mistério,
O sentir azul forte no sangue.
Afasto os maus espíritos para longe, por hora…
A distância que me separa da luz do sol de Outono
É uma distância de água e lua, toda em torno,
Rendilhando no escuro os galhos das árvores
Que vão deixando cair as folhas castanhas.
– As árvores grandes e fortes
Que rasgam o solo antigo e negro.
Sei que vieste de noite, em substância
Durante o meu sono de tumulto.
És melhor em substância do que tu.
És melhor perante mim
Do que perante mim
E tudo o que é a pragmática.
Agora posso guardar-te
No fundo do lago.
1993
Café
Então estás bem, sim? Posso servir café?
Não dá para mudar a bandeira e seguir outra guerra?
Adeus então e boas férias.
Ainda pode ser que venhas servir-me café.
Aguarda na tarde um guarda-chuva de sol…
Estendido na rua, esticado o anzol
E um azul sem fim de túnel, por onde vamos a andar.
Vai-te embora estrela, para sempre, porque não posso esperar que desças, aqui sentado.
Adeus pássaro e cigarra, cigarrilha e meia preta,
em teu leito tens meu gosto de desejar-te na valeta
De teus olhos, rasgado esmalte, lua crua, sol de azeite e lamparina
Que ilumina
Noite fria.
Vamos embora daqui.
Partida a rua está de horizonte, rasgada em duas. Verdes os campos são,
Não sei qual o lado onde ponha mais razão.
Vai-te embora pássaro leve,
No céu não há mais amor,
Não te quero de ultraleve
Ou seja lá do que for.
Quero tudo, quero já…
Saber onde vai o rio de te querer assim aqui…
Foi-se embora no fio que perdi.
Quero-te horizonte
Impossível de alcançar,
Quero-te para lá do monte.
Quero-te para te amar.
1997
Azul
Azul escuro do profundo mar
Que cor é esta
Ó esmeralda?
Azul e vermelho
Coalhados sonhos
À tona das águas sem leito…
Que juventude é esta
Que sereia mascarada?
Que força, que audácia
Recortados picos das montanhas?
Que mistério
Que solidão
Que gloriosa vida
A calcar paralelos das ruas?
1994
Quatro cadeiras
Havia quatro cadeiras.
Em nenhuma estavas tu.
Já não encontro maneiras
De me encostar às cadeiras…
Sonhei que vinhas entrando
Pela porta rasgada em mim…
Já sei que estava sonhando.
Haverá para o sonho um fim?
Havia quatro cadeiras
Na mesa espraiada aqui.
Perdi todas as maneiras
Só por pensar em ti
O copo caiu na borda,
Em pedaços se desfez.
Partiu-se o copo na orla…
O meu coração, só talvez.
Um talvez desfeito em nada,
De uma dor assim sentida
Que sempre parece errada
Esta dor a ti unida.
Folhos
Ocultos folhos do coração
Se houvesse no silêncio perdão
Para as palavras não ditas que disseste
Que alojo no pedaço que perdeste
Ao abrires o meu peito e lá deixaste
As rendas de um sonho que não amaste.
Não é por te ver
Não é por te ver ou olhar,
Não é por te ouvir a cantar,
É por te sentir cá dentro
Num sonho só de sonhar…
Tua voz é um sentimento.
Agarro-o num momento…
Teu corpo não tem limite;
Teu corpo não se permite
Registo de som ou imagem.
Mais do que gente ou ente
Não passas de uma miragem
Que a minha alma sente
Quando olha a paisagem.
Para lá da nuvem que esfuma
O momento da paixão,
Mais do que mar de espuma,
Mais do que ilha de ilusão,
Todo o teu mar é perfume,
O teu sal é o meu ciúme
E a tua água a união.
Teia
No novelo das impossibilidades
Frágil é o fio
Que a aranha das afinidades
Entre nós teceu.
Carta portuguesa
Podias vir, agora mesmo, para ao pé de mim. Digo o que em português é o bastante para ser muito. Nesta língua pátria há palavras que não se dizem, por querem dizer outra coisa, e outras que dizem mais do que em qualquer outra língua, sem dizerem tudo.
Nesta pátria dura e inconsequente, como se não fosse terra nenhuma e o mundo inteiro no candeeiro deste quarto (não sei se as outras crianças do mundo têm candeeiros com o planeta, os oceanos e continentes, mas eu sei que nós gostamos muito destes candeeiros), nesta pátria que olha o Ocidente, sempre a pensar em partir, para o ver o mundo, quem fica sabe que fica para trás, quem fica aprendeu a calar as palavras do amor, a saber que existem, em azul-negro, no mar profundo, a saber que existem em várias cores, sobre a terra, como todas as coisas que existem, na terra e no mar; a saber que são demasiado impossíveis de agarrar, para as trazer aqui e escrevê-las numa carta para ti.
Como diz o poeta, é ridículo escrever cartas de amor. Para quê, se o mar já é grande e salgado e estás sempre do outro lado?
Mas vem, mesmo assim. Se vieres, vem como aquele que espero. Espero-te sem fé, pois claro. Fica sabendo. Espero-te sem esperança.
Mas vem, como o sol sobre o gelo das goteiras.
Não. Pára. Fica em silêncio. Nesta terra lusa, tudo deve ter uma certa distância, para ser verdadeiro, ou profundo. Senta-te aqui, ao pé de mim. Enlacemos as mãos sabendo que, se quiséssemos, poderíamos desenlaça-las. Não me dês as mãos. Cai sobre mim. Fera. Chuva. Leva-me para tua concha, no fundo do mar. Aqui não há asas. Não se pode voar. Aqui o abismo é raso. Aqui estampamo-nos logo no chão. Oh meu amor! Isto é um filme português! Aqui nada é cinema!
Por isso deixa-te estar onde estás, em outra pátria, enquanto te escrevo cartas de amor, ridículas, pois claro, como devem ser todas as cartas que são amor.
Poema a três mãos (línguas)
Espero que venhas, para ao pé de mim
E me digas que a espera teve um fim.
Sei que vieste e eu pude ver
Que quem esperava nesta rua
Não era aquela que deveria ser tua.
Mudou o ser, ou mudou a porta?
A fechadura estaria torta?
Sem fio de prumo,
A alma muda de rumo.
Sem ritmo afinado,
A voz não canta esse fado…
O dom da companhia do ser
É para quem sabe viver…
Não para quem deseja impossíveis
Enredos indizíveis.
Para quem tudo o que é não tem
Esse interior que mantém
O ser único recortado
Neste espaço desenhado.
Por las tardes te esperé entre incertezas,
Con las manos en las rejas Que cercan mi cárcel de esperanzas. Tus pies sentí en el camino,
Pero cuando miré vi el destino
Que no teje más que tardanzas.
Te quedaste en el otro lado,
Yo quedé en mi cercado,
Dibujo de libertad,
Sabiendo en el corazón la verdad
– Sin acuerdo o guion,
Somos cojos sin bordón,
Hasta que Dios corte el hilo
De esta vida extraña y sin filo.
For many days and nights, I waited for your song,
For many seasons I sang out all alone.
But then I heard a whispering of you
Calling out my name on a burning flame.
Soon I knew your song wouldn’t do
To make my heart enough for two.
So I sing unaided for some more seasons,
Not waiting for anything but the reasons,
The very nature of flesh and bone,
That makes us born and die alone.
Olhos rasgados
Rasgados em devir água vi teus olhos menina…
Esmaltadas num asfalto negro caíram águas
Paradas de possibilidades de fazer dos sonhos o cavalo real onde montamos
– Negro corcel, sem sendas
Nem rendas
Nem espaços de paragem,
Sem esperanças,
Fianças,
Desejos de outra romagem.
Rasgados em devir água vi teus olhos menina…
Acabamos por montar o cavalo e pronto!
Choramos o que temos a chorar
No dorso negro do corcel da dor,
Cantamos o que temos de cantar
No dorso andante do corcel da alegria,
Prendemos o que nos prende
Nas fitas do corcel do amor…
Esperamos o que esperamos
No dorso alado do corcel da esperança,
Agarramos, quando agarramos,
O dorso forte dum cavalo teimoso.
Acabamos por ir onde nem sonhámos,
Acabamos por nem sair dum cavalo de sonho.
De pouco servem rédeas quando o preso somos nós…
De pouco servem rédeas quando o cavalo somos nós
E raras são as vezes em que apostaríamos no nosso cavalo.
Rasgados em devir rios, vi teus olhos menina…
Sonhei que haviam tornado as lágrimas o asfalto azul do céu, como um rio que espelha.
Teus olhos têm a memória dum cavalo sem rédea que assentava as patas na terra,
Teus olhos têm a memória dum corcel que corria sob o sol,
Teus olhos têm a memória dum anjo de fogo
Que vem secar as fontes de teus olhos lágrimas…
Teus olhos têm a memória dum olhar a sorrir.
Na tua boca fechada está a esperança,
A sempre guardada esperança, de fazer este porvir um outro porvir.
Devem água, devem chuva, cheia,
Devem rio ou devem mar…
Prende-me a ti com teus olhos, agarra este corcel de fitas soltas, prende-as nas fitas dos teus cabelos
E vem comigo.
Comigo que gosto de ir sozinho
Comigo que sou prisioneiro, de qualquer modo,
Comigo que tenho um cavalo fraco,
Comigo que não tenho muitos lugares sentado,
Mas vem.
De qualquer modo, vem…
Não fiques aí, no meio da estrada
A chorar pelo que não temos,
Pelo que nunca teremos,
Pelo que nem sonhamos sonhar.
1998
Sol frio
Fingido, áspero, tórrido ou rude
Vieste sobre mim na má tarde,
Que ainda espero mude
O estar aqui sonhando
Este sol fingido quente,
O estar aqui esperando
O que o coração nem sente
Não muda a tórrida hora
Em que eu o desejei,
Mas de tanta demora
Este sol não será rei.
Falsa, fingida tarde, em que eu o coroei.
2001 ou 2000
Ao campo aberto
Ao campo aberto
À luz sadia
Noite alta desperto
Sonho com o dia
O dia do trabalho
O dia do suor
O dia do cansaço
O dia sem amor
O dia de bater
O dia do combate
O dia da guerra,
Que sempre fazemos,
O dia de gritar
O dia de votar
O dia de escolher
O dia, que sempre vem,
Bem alto e claro e certo,
O dia de sofrer.
Eu bem sei que o dia
É só um dia qualquer
E também é o único que há para viver.
Bendito o dia
Em que vou assim perdido
Calando na rua
Que não estou vencido
Que a guerra continua
Fora e dentro de mim…
Ao campo aberto
À luz sadia
Noite alta desperto
Sonho com o dia
Em que livre fiquei,
Solto do crédito,
Solto do préstimo,
Livre do banco
Do jardim do desencanto.
Pesadelo do “formigueiro” na TV
Sono, um grande sono, vagas de sono… O lápis partido caiu da secretária. A professora da pele sarnenta tomava café. Os garotos zumbiam em torno da impossibilidade de construir algo… algo longe do caminho de lama que ia dar à escola. Esgaravatavam minhocas e atiravam à menina, ao passar. As minhocas cheias de terra choviam no inferno… febre… uma noite de febre.. mãe… o cobertor esmaga-me, é impossível, é tudo impossível… esmagado… deliro com coisas que ganham dimensões de assombro, mas isso é ainda dizer pouco. É um sonho a preto e branco, acordado e a dormir, com um formigueiro como o da televisão, quando não dá. Os cardos agarram-se às meias, a sépia, e é tudo impossível… impossível… mas não é bem isso. É esmagador, mas é mais do que isso… acordar, é preciso acordar… febre, o caminho da escola, coberto de lama, com cães selvagens sempre em torno… veio um senhor, tirar fotografias… filmou muito bem e nem disse nada. Era preciso levar musgo, esqueci-me do musgo… era antes do Natal, queriam fazer muita coisa e construir muita paz, mas a lama subia para cima das minhas queridas galochas verdes e perdi o musgo todo no caminho… no fim do caminho a casa quadrada branca, fria. Não quero ir! Os deveres, o inferno dos deveres… rezei ao menino Jesus para que aparecessem feitos… as contas de dividir, infindáveis, intermináveis… ajuda pai… demasiado impossível… o frio… os cães… sempre cães, por todo o lado… tive que fugir pelas vinhas, subir a encosta… sonho, cubro a realidade com um lençol de veludo. Toda a beleza me entra pelos olhos e faço da sensação um misterioso lugar encantado onde existe tudo o que existe, mas não é igual… acordo. É preciso acordar para ir à escola. A avó faz ondinhas com o pente e a água e um arrepio de prazer que desce pela espinha. É preciso ir, caminhar, ficar sentado, fazer contas, aprender as letras, participar nas músicas, estar com os outros, ficar perto das pessoas e dos cães… a lama congelada não suja as botas… a lama congelada vai dar à escola, onde… raiva… tenho de ir. Vou, mas fico. Fico sempre, entre o terror e a realidade, entre o sonho e o existente, entre a beleza e todas as outras pessoas e os cães… Venham aqui. Tirem fotos. Sou um índio que veio de um mundo além, povoado de falhas que me fazem cair neste… Não sei o que estou aqui a fazer, mas querem que aprenda a escrever e fazer contas, de dividir, intermináveis, só de dividir, não de multiplicar, nem de somar… subtraio todo o trabalho que posso… dou a volta ao quadrado e fico no mesmo lugar, apanho uma coisa daqui e dali, mas aprendo mal e pouco. Uma atrasada… atrasada mental… um índio dividido por tudo o que acontece, infinitamente, até ao infinito, impossivelmente, esmagadoramente…. Aqui.
Desde essa altura não durmo quando tenho febre. Em estado de vigília rompeu-se o cobertor de veludo, a tela onde projectava no futuro o que devia ser o presente. O presente é. Continuo a dar voltas ao quadrado. Contornei toda a ciência, eu que tanto queria descobrir… tenho sono, porque tomo coisas para dormir. Então durmo e não sei se deliro, acordo e vou. Se me pedirem para pedir um desejo não sei o que pediria…
ficarei a assombrar paredes nesta primavera fria, exposta à tortura do tempo e dos humanos… 25 de Abril será o dia da Liberdade, mas porque é que morreu? A Liberdade está morta. Falta só fazer-lhe o funeral e enterrá-la fundo. A esperança durou dois dias… resta-nos a liberdade dos vagabundos, a liberdade dos ciganos, a liberdade sem chuveiro de água quente, a liberdade sem biblioteca, a liberdade entre os ratos, a liberdade em monumentos onde c… as pombas ; o 25 de Abril preso em estátuas, os camuflados da tanga, os velhos das cruzes, antigos combatentes fanados do impero morto, a liberdade de colocar o Salazar a f… como um cão, a liberdade…
Escrevi muitos mais nas bordas das folhas de apontamentos, mas não sei o que lhes aconteceu. A juventude é prolífera em muitas coisas e a minha foi especialmente prolífera em coisas que não pagam contas.
Toda a minha escrita é atravessada por citações ou comentários de grandes poetas portugueses, simplesmente porque antes de escrever poemas tinha o vício de decorar aqueles que mais amava, e eram muitos.
Devia ter decorado a matéria e prestado atenção nas aulas de matemática, as únicas em que é necessário um professor. Também é certo que não as tive, ou porque a professora não estava, ou porque não estava eu presente de corpo e espírito.
Eu nunca quis ser poeta. Queria ver atrás do pano. Talvez, quem sabe, a poesia (não a minha, a dos grandes poetas) também seja uma forma de ver para lá do pano. Não sei. Da minha parte, por mais que gatafunhe a superfície da realidade nunca encontrei indícios dum sentido, A física, neste momento, parece-me mais fantástica do que aquilo que já sonhámos. A física! Era isso! Em física as equações faziam sentido, ou a professora era boa, das poucas e poucos que eu consegui ouvir falar do início ao fim. Física, nos anos 80, em Portugal! Diretamente de Guadramil para a Nasa! Não há milagres, há é boa sorte. Sim, acabei em muitos buracos negros, mas alguém real em cima sempre me estendeu a mão e eu estou aqui.