Pedro e a Máquina
de Consertar Cabeças
e outros contos
Este livro é composto por três contos distintos cujo tema geral é o que significa ser humano e não um outro animal. Será que é melhor ser gente ou ser rato? Ler e pensar ou deixar os cientistas decidir? Viver em harmonia com a natureza ou não?
Pedro e a Máquina de Consertar Cabeças é o mais infantil dos três livros desta série, apesar de poder interessar a adultos de qualquer idade. Pedro, o personagem principal, vive num futuro distante em que os humanos não precisam fazer absolutamente nada para viver. Nesse futuro existem máquinas que fazem tudo. É um mundo perfeito no qual pensar não é preciso. Para os que não são felizes vivendo nele existe uma máquina que conserta o cérebro e deixa toda a gente tranquila. Será assim?
Albertina no Reino dos Ratos
Albertina, também conhecida como Maria, vivia em Londres quando foi raptada por um bando de ratos e conduzida aos subterrâneos da cidade. Aí conhece um rato português que lhe explica as razões por que foi raptada – ajudar os ratos num plano! Será que o plano resulta? Será que a moça consegue sair do buraco e encontrar o caminho para casa?
O Meu Amigo Lobo
Escrito numa manhã em Londres, em 2018, este é um conto que nos leva a um distante lugar em Portugal onde os lobos habitam ainda. Contudo, mais do que uma história sobre lobos, esta é uma história sobre o difícil que é ser humano. Será que é melhor ser gente ou ser um lobo? O que escolheríamos se pudéssemos escolher? Neste conto final, voltamos a encontrar uma referência Pedro e Albertina, também amigos do “meu amigo lobo”.
Excerto 1
— Sim, vives numa ditadura. Não és livre, mas pensas que és — ou nem pensas nisso. As melhores ditaduras — explicou o meu pai — são aquelas que impedem os homens de pensar por si mesmos e os fazem acreditar no que lhes dizem. O teu governo diz que quer que sejas feliz e que está a proteger-te, a ti e ao planeta, de todos os males do mundo. É por isso que eles vos sobrecarregam com máquinas, entretenimento que supostamente satisfaz todas as vossas necessidades. Com isso, os humanos tornam-se uma espécie obediente e controlada, que faz o que lhe é dito e não causa problemas. Esse és tu. Nós, por outro lado — continuou — deixámos esse mundo para sermos livres, pensarmos por nós mesmos, mas, para isso, precisamos estudar, ler, escrever e todas as outras coisas. Portanto, temos o conhecimento para reinstalar tecnologias como telefones, electricidade, abastecimento de água e tudo o mais. Mas há pessoas que não querem porque temem que o que resta do mundo livre sucumba novamente à vontade de alguns. É uma ironia. Vocês têm a tecnologia, mas não sabem como funciona; nós sabemos como funciona, mas não a usamos porque temos medo de nos tornarmos escravos.
Excerto 2
– Não é nada disso! Lá em cima não seria capaz de exercer uma destruição controlada, como aqui desejamos. Bem, eu não desejo nada. Eu só quero ir para casa! O uso de venenos, ou armas químicas, poderia pôr em risco todo o ecossistema, envenenar o esgoto e destruir toda a população. Não é isso que se quer. Também não haveria suficientes fundos para investir numa solução desse género. Depois poderia desencadear uma guerra, se se soubesse que os ratos andam a envenenar outros ratos. Em pequenas doses, ao longo do tempo, ninguém dá conta, mas com um cenário como o que se pretende aqui, não dá. Ora bem, uma guerra aberta para eles não é uma coisa má. Os que estão acima de nós não se importavam. O problema é que, com o poder que as armas hoje em dia têm, nunca se sabe no que isso ia dar. Podia apanhá-los a eles, sabe-se lá! De modo que se decidiu arranjar um engodo, uma rapariga portuguesa, conhecida por matar ratos, escapa-se da tutela do rato português, chega ao jardim zoológico e solta a jiboia.
Excerto 3
– Segundo os uivos, uns seres mais avançados do que os humanos e as raposas, uns tais extraterritoriais que têm civilização suficiente não só para modificar lá o sítio onde vivem, mas também fazer experiências em outros territórios. Quando o meu tio-avô contou a história falava em outros territórios apenas. Nós não temos essa coisa dos planetas. Nós temos territórios e basta!
– A parte interessante da história não foi as raposas darem cabo do planeta, ou do território com a sua civilização, as suas mãozinhas.
– Não? Raposas com pelo e rabo, mas de saltos altos, focinho e batom parece-me engraçado. Não digo interessante, mas é engraçado!
– O que há de dizer a civilização das panteras, quando alguém lhes contar que um dia existiu uma civilização de macacos pelados?
– Também tem a sua piada!
– Isso, rir é o melhor remédio!
– Então diz-me lá quem eram esses seres mais civilizados do que os civilizados?
– Eram uns seres que não usam mãos para transformar o mundo.
– Não!?
– Népia.
A Queda do Paraíso
Com a adição de um novo capítulo que faz uma revisão histórica completa, mas, espero, não aborrecida, esta é uma colecção de pensamentos que retratam um pouco da minha vida de emigrante em Londres, entre 2015 e 2019. Este é também um testemunho de época, embora seja um testemunho muito pessoal.
Entre 2011 e 2015 foram milhares os portugueses que tiveram de emigrar para encontrar trabalho, num surto comparável ao da década de 60 do século passado. Alguns, como foi o meu caso, eram jornalistas. A crise financeira iniciada nos Estados Unidos em 2008 veio somar-se à crise dos jornais que não encontraram uma estratégia eficaz para sobreviver à concorrência dos conteúdos on-line, gratuitos, iniciada um pouco antes. Estas foram as contingências históricas da minha emigração, mas não as suas contingências verdadeiramente humanas que a leitura do livro pode transmitir. Com partes para rir, outras nem tanto, este foi um modo de viver uma fase difícil que não trocaria por ficar no mesmo lugar para sempre. Nunca.
Excerto
Também fiquei muito baralhada a primeira vez que entrei numa auto-estrada. O garoto tinha-se esquecido do casaco do uniforme na aula de ténis. Era uma cabeça de vento, e eu ainda sou. Duas cabeças no ar juntas não podem dar certo. O campo ficava do outro lado da vila, mas havia bastante trânsito pelo centro àquela hora. Resolvemos contornar pela via circular externa! Correu tudo bem, tirando a parte inicial do garoto a gritar-me “get on the left lane, get on the left lane”! Sim, por um minuto o meu cérebro enganou-me e encostei-me à direita a pensar que essa era a faixa mais lenta. Ainda bem que o meu co-piloto de sete anos estava atrás para me corrigir. (Era um fofo que morria por uma palete de açúcar e um sorvo de vinagre, tudo coisas proibidas entre indianos talhados, de pequenos, para o sucesso.) Depois de alguns carros me terem apitado e ultrapassado pela esquerda, fiz pisca e encostei-me à esquerda e correu tudo bem. Há sempre gente apressada neste mundo a apitar por tudo e por nada!
Tudo isto aconteceu em 2015. Estava em Wimbledon e já sabia conduzir à inglesa às mil maravilhas no torneio daquele ano. Caiu uma chuva miudinha no dia da final masculina entre Novak Djokovic e Roger Federer. Serena Williams e Djokovic venceram e eu comi uma costeleta de vitela depois de dias e dias a comida utra-picante e a dar para o vegetariano.
Pedro e a Máquina de Consertar Cabeças
Uma vez, quando eu era pequeno, tive um sonho. Sonhei com o passado; uma época em que tudo ainda era possível e o presente poderia ter sido diferente. Para mudar o presente, precisamos de mudar o passado, mas isso é impossível, como sabeis. A única coisa que podemos tentar fazer é mudar o futuro. No entanto, talvez não possamos mudar o futuro sozinhos. Precisamos de seguidores. Não um ou dois seguidores, não cem ou mil. Precisamos de milhões ou biliões.
Vejamos aqueles que fizeram isso antes, como Jesus ou Maomé. Sim, eles foram criadores de religiões. Outros fizeram revoluções, guerras, escreveram livros de filosofia e há até aqueles que mudaram o mundo com a verdade ou inventando coisas novas e úteis. Esses são cientistas, como Galileu e Einstein, inventores e poetas. Os inventores mudam o mundo criando coisas que funcionam segundo os princípios da realidade, e os poetas humanizam a verdade, dando-lhe pernas, dentes, ouvidos, olhos e, às vezes, até um coração. A verdade não precisa de seguidores; ela não é humana. Colocar mãos e olhos no vasto e escuro vazio do universo é algo humano. Quando o vazio se transforma em letras a humanidade injeta significado e história na realidade, iluminando um caminho de estrelas na vasta escuridão, ou trazendo o nada para viver entre nós, sob belas palavras de felicidade e ordem.
Claro que, quando eu era pequeno, não pensava nessas coisas. Eu pensava muito, talvez até demais, mas não sabia nada; não sabia que vivia sem religião e sem poesia, sem fé ou liberdade. Eu sabia que faltava alguma coisa, mas não sabia o quê, e por isso estava sempre descontente, com raiva, furioso. O meu pai, a minha mãe e, principalmente, a minha irmã viviam em constante guerra comigo, ou eu com eles. Foi aí que sonhei em mudar. Não aguentava mais. Estava farto e não sabia o que fazer.
Então, uma noite, enquanto todos dormiam, peguei numa tesoura e cortei os lindos cabelos cor de mel da minha querida irmã — a linda, magnífica, perfeita, aquela que sempre tinha as melhores ideias, a mais inteligente, a mais doce! Ela tinha 15 anos e tinha um carinho especial pelos seus longos cabelos. Eu sei: o que fiz naquela época foi injustificável e cruel. Eu não ia vencer a guerra nem mudar o mundo. O mundo tem já demasiados actos de vingança injustificada. Eu tinha nove anos.
Não foi nesse ponto do meu sonho que o desejo de mudar o mundo aconteceu. Só queria mudar alguma coisa; ainda não tinha chegado a essa parte de querer mudar o futuro.
Vou contar-vos o que aconteceu. Os meus pais não entendiam o que me faltava para ser feliz e estavam preocupados. Nós vivíamos no mundo das máquinas. Os cientistas, muito inteligentes, conseguiram que as máquinas fizessem comida. Era só carregar num botão, programar para “bife grelhado”, e aparecia um bife grelhado. Também faziam chocolate e muitas guloseimas. À máquina de fazer comida deram o nome de Manducare Demus.
No princípio, as máquinas eram muito caras e as pessoas ainda tinham de trabalhar para ganhar dinheiro para as comprar. Mas, passados alguns anos, era tão fácil comprar uma máquina como hoje comprar um telemóvel.
Com o passar dos anos, toda a gente passou a ter uma máquina. As lojas de comida tiveram de fechar e os agricultores já não precisavam de trabalhar os campos. Era mau porque os agricultores e as pessoas que vendiam comida ficaram sem emprego. Contudo, como eles também podiam comprar uma máquina de comida, na verdade isso deixou de ser importante.
Os cientistas foram mais longe e, em poucos anos, já havia máquinas para fazer tudo num instante. Faziam tudo o que era preciso para as pessoas viverem e também o que não era preciso, mas que lhes dava prazer.
Até havia máquinas para fazer ouro e diamantes. À máquina das coisas preciosas deram o nome de Gratia Demus. Claro que, quando toda a gente passou a ter ouro, diamantes e outras pedras preciosas, o ouro e as pedras preciosas deixaram de ter valor.
A máquina de fazer dinheiro também deixou de ser precisa. Já só havia dessas máquinas para fazer o gosto a velhos coleccionadores de dinheiro. Essa máquina tinha o peculiar nome de Attonitus Sal.
Esse acabar com o dinheiro não foi bem recebido pelos muito ricos. Contudo, estes passaram a fazer parte da Sociedade Científica da Máquina de Fazer Máquinas. Essa máquina chamava-se Mater Cesária.
Os ricos não eram cientistas, mas, dizia-se, viviam em lugares especiais onde mais ninguém vivia. Chegou a pensar-se que estariam já noutro planeta, o Olimpus Extraterra. Esse planeta tinha a particularidade de ter um clima tropical todo o ano, sem furacões nem insectos nefastos como mosquitos ou baratas.
Naquele tempo, estavam todos tão felizes com as invenções que resolveram tornar as máquinas gratuitas para toda a gente que não pôde entrar na Sociedade Científica. Quem nascia tinha logo direito a uma máquina de fazer leite. A pequena máquina leiteira chamava-se Mater Demus. Depois, podia ir pedindo outras máquinas, que eram concedidas a todos, excepto aos marginais.
Havia máquinas para fazer roupa, máquinas para fazer sapatos e máquinas para fazer casas. A máquina de fazer roupa tinha o nome de Manicas Demus. A máquina de fazer sapatos chamava-se Plantares Demus e a máquina de fazer casas chamava-se Domus Demus.
Com a passagem dos anos, como não era preciso trabalhar, muitos perguntaram para que era preciso ir à escola. Os professores também desistiram de ensinar e passaram a ficar em casa a carregar nos botões das máquinas. De modo que já não havia escolas quando eu nasci.
Os mais velhos não deixaram de advertir que isso podia ser errado, mas ninguém lhes deu ouvidos. Naqueles tempos, os velhos eram tratados como máquinas obsoletas a precisar de um “update”.
Os únicos que ainda tinham escola e professores eram os filhos dos fazedores de máquinas. Os que viviam no Olimpus Extraterra também não iam à escola. Pelo menos era isso que todos pensavam.
Claro que as pessoas deixaram de ler e escrever e também não sabiam a tabuada. Não era preciso!
Ainda havia internet, mas as pessoas comunicavam por símbolos, por fotografias ou pelas câmaras de vídeo.
Uma das maiores invenções de todos os tempos foi a máquina médica (a Magister Corporis). Se as pessoas estavam doentes, eram lá metidas e saíam de lá como novas. Até faziam operações plásticas para tirar rugas e saíam de lá como novas, mesmo.
Depois, passou a haver muitas máquinas médicas diferentes. Umas eram para o coração (as Conserta Coragem), outras para os pulmões (as Éolos Máximus), para os ossos (as Bellus Sketetós), para a pele (as Speculum Amicus). Havia máquinas para o corpo todo, mas havia uma que todos temiam um pouco: era a máquina de consertar cabeças (a Conserta Capo Demus).
Na máquina Conserta Capo eram metidos os meninos que se portavam mal, os que faziam muitas birras, os gordos que comiam demais, os tristes, os que choravam muito sem razão e os que saltavam os muros da cidade para conviver com os marginais.
O transporte das máquinas e das pessoas entre cidades era feito por teletransporte. Havia uma máquina em que se colocavam as coisas ou as pessoas e outra no lugar para onde as coisas ou as pessoas deveriam ir. Carregava-se no botão e, num instante, as coisas ou as pessoas mudavam de um sítio para o outro.
Certo é que, desde que se inventaram as máquinas de fazer tudo, as pessoas não viajavam muito entre as cidades. Quase nem saíam de casa. Tinham no interior tudo o que precisavam, incluindo excelentes máquinas de passar férias (as Olimpus Vacans).
As Olimpus Vacans eram máquinas em que se podia sentir ir à praia, cheirar o mar, apanhar sol e passear no campo. Até simulavam uma estadia num hotel de cinco estrelas, com direito a SPA e piscina aquecida.
Naquele tempo, também não havia polícias, mas havia câmaras de vigilância em todas as ruas da cidade. Se as pessoas faziam alguma maldade em frente às câmaras, num instante aparecia um cientista teletransportado. Este cientista fazia as vezes de juiz e polícia e tinha a função de colocar os malcomportados na máquina Capo.
Havia pontos de teletransporte em todas as ruas. Contudo, só os cientistas os podiam usar. Se alguém quisesse ser teletransportado para outra cidade, tinha de requisitar um bilhete. O bilhete era grátis, mas tinha de ser pedido quarenta dias antes da viagem.
No interior das casas, as pessoas podiam optar, ou não, por aderir à televigilância. No entanto, a simples utilização de qualquer máquina permitia aos cientistas saberem o que cada um fazia. Também as webcams, que havia em todas as casas para comunicar com parentes e amigos, tinham uma ligação directa e permanente ao Serviço de Diagnóstico de Problemas. Este Serviço funcionava no lugar onde estavam os cientistas e a máquina Cesária.
Apesar de toda a vigilância, havia sempre quem fizesse muitas coisas sem nunca ser visto. Piratas informáticos tornaram-se especialistas em controlar as câmaras. Podiam fazer com que o Serviço recebesse uma imagem permanente de uma rua tranquila, onde não passava ninguém, quando, na verdade, essa era uma imagem gravada no dia anterior. Utilizavam-se estes serviços pirateados sempre que se queria ir para a rua sem ser visto. Como, sem escola, os piratas aprenderam a usar computadores? Não sabemos ao certo. Calculamos que os piratas tinham o talento da pirataria — algo inato, com o qual alguns nascem e outros não.
Havia também algumas pessoas que, sem ajuda de computadores, conseguiam passar na rua sem serem vistas. Entre outras técnicas, serviam-se de um mapa de ângulos mortos. Estes ângulos eram espaços que as máquinas não conseguiam filmar. Era possível, dizia-se, atravessar a cidade de uma ponta à outra passando de ângulo a ângulo sem nunca ser detectado.
Eu tinha umas luzes sobre o assunto. Eu e os meus amigos da vizinhança saíamos às vezes escondidos para brincar na área aberta perto de alguns prédios antigos da época anterior às máquinas. Adorávamos explorar aquela parte da cidade. Uma vez fomos repreendidos pela Central e ficámos apavorados. Felizmente, eles não viram para onde fomos. A Central perguntou-nos o que estávamos a fazer na rua e nós respondemos que estávamos a jogar futebol. Nunca saíamos de casa sem uma bola. Era a desculpa perfeita caso alguém fizesse perguntas.
As pessoas não podiam afastar-se da sua “área residencial” sem autorização, e era absolutamente proibido visitar a parte antiga da cidade. Qualquer pessoa apanhada naquela área poderia ser julgada, e a sentença era ir para a máquina de consertar cabeças.
Eles diziam que as pessoas não podiam viajar de um lado para o outro constantemente desde a época do aquecimento global. Após uma grande catástrofe, seguida de uma pandemia, elegeram um presidente que ordenou que todos ficassem em casa.
Para todos serem perfeitos e saudáveis, os cientistas tiraram a todas as coisas aquilo que nelas podia ser prejudicial para a saúde. Isso era bom, mas às vezes os cientistas exageravam e tiravam mais do que o recomendável, ou pura e simplesmente enganavam-se nos cálculos, e o que fazia bem a uma pessoa não fazia bem a todas as pessoas. O mesmo se pode dizer quanto ao que fazia mal.
Fartas de carregar em botões, as pessoas até podiam optar por tomar um comprimido que lhes tirava a fome completamente. Era totalmente saudável e absolutamente eficaz.
Quem engordava demasiado podia tomar um comprimido “light” seis vezes ao dia. Tirava a fome e todos ficavam magros.
Claro que havia gente teimosa e gulosa que preferia comer até fartar a comida saudável produzida pelas máquinas. Como continuavam gordas, suspeitava-se que comessem comida natural traficada pelos marginais. Só essa é que engordava, pensavam eles! Essas pessoas tinham de consertar a sua vontade de comer e eram levadas à máquina Capo.
Apesar de quase perfeitas, havia coisas que as máquinas ainda não faziam. Podiam fazer um bife, mas não conseguiam fazer uma vaca. Podiam curar as pessoas e fazê-las viver muitos anos, mas não conseguiam que vivessem para sempre.
Esse era o meu mundo.
Então, quando acordei e ouvi a minha irmã a gritar e a pedir aos meus pais para me colocarem na máquina Capo, entrei em pânico. Agora sei que era apenas uma ameaça, que eles nunca fariam isso, mas, na época, fiquei com medo e fugi de casa.
Na cidade, muitas pessoas discordavam silenciosamente de colocar pessoas naquele dispositivo horrível. Algumas guardavam os seus segredos de família discretamente.
Aqueles que saíam da máquina de consertar cabeças paravam de comer demais e de fazer coisas prejudiciais à saúde. Também deixavam de se portar mal. Nunca sentiam fome, frio, calor ou medo. Nunca ficavam tristes, o que não significa que estivessem sempre felizes.
Como todos, eu tinha medo e fugi de casa. Tomei cuidado para evitar as câmaras de vigilância e caminhei discretamente pela rua, sem pressa. Tinha ouvido falar que além dos últimos prédios da cidade viviam grupos de marginais que se opunham aos cientistas. Muitas vezes, arriscando serem apanhados e punidos, contrabandeavam coisas não fabricadas por máquinas em troca de comida. Eram eles também que faziam as notícias circular na cidade. Os meus pais sempre tiveram medo de se associar a eles, mas às vezes davam-lhes comida.
Eu vi isso pelo menos uma vez: já passava da meia-noite quando alguns estranhos apareceram, e o meu pai entregou-lhes um pacote que eu tinha visto a minha mãe embrulhar. Era comida da máquina que ela fizera antes de eu dormir. Eu não entendia, mas também não perguntava por que ela embrulhava algo que podia ser feito e ingerido de imediato. Não fazíamos comida para mais tarde. Fazíamos quando estávamos com fome, a menos que fosse alguma receita nova. Às vezes, ela fazia isso. Ela pedia pepinos e vinagre para fazer picles. Podia simplesmente pedir picles à máquina, mas respondeu: “Não é o mesmo.”
Achei muito estranho. Então não era tudo perfeito? Foi aí que comecei a ficar confuso. É claro que a crina de cavalo da minha irmã, a linda Maria, não tinha nada a ver com picles, mas eu não conseguia verbalizar as coisas nem raciocinar direito. Lembrem-se de que eu não sabia ler nem escrever.
Ao contrário de mim, os filhos dos que moravam fora da cidade iam à escola. Foi uma surpresa total para mim quando encontrei um grupo de meninos e meninas da minha idade para lá dos últimos prédios, além do matagal. Eram uns dez ou onze e carregavam mochilas às costas. Caminhavam todos felizes. Eu ia esconder-me, mas não sabia onde. Eles já me tinham visto na clareira repentina. Fugir era inútil. Além disso, eu sentia as minhas pernas coladas ao chão.
O rapaz mais alto, com um olhar autoritário, armado em forte, veio até mim:
— Olha, olha! O que temos aqui? Um maquintoshas da cidade? Perdido, hei?
Eu não sabia o que responder, então fiquei em silêncio.
— O homem das máquinas não fala. Talvez ele tenha servido no exército!
Todos começaram a rir do que devia ser uma piada. Mais tarde, descobri que, para eles, servir no exército era sinónimo de ir para a máquina de consertar cabeças, e maquintoshas era como chamavam todos os que se submetiam às leis do Centro de Diagnóstico de Problemas — ou, a “Central”, como nós lhe chamávamos.
De repente, apareceu outro grupo de pessoas mais velhas. Pareciam ter a mesma idade de Maria. Uma das raparigas aproximou-se e perguntou o que estava a acontecer.
— Nada. Encontrámos este aqui, mas ele não fala. Veio da cidade — respondeu o fanfarrão.
— Ok, ok! Qual é o teu nome? — perguntou a moça, olhando para mim.
— Pedro — respondi.
— Vens da cidade?
— Sim.
— Então vamos levar-te para a aldeia, descansas um pouco, contas aos nossos pais o que te aconteceu e amanhã veremos. Está a escurecer; não te devem mandar para casa a esta hora. Vamos — disse ela, estendendo-me a mão.
Era uma moça alta, de cabelos escuros e olhos verdes. Devia ter uns dezoito anos. Fui com ela e os outros dos dois grupos, cerca de vinte no total. As casas começavam a aparecer. Eram casas pequenas, algumas maiores, algumas de madeira, outras de cimento. Tudo muito irregular, diferente da cidade, onde as ruas e as casas eram todas iguais — excepto nas partes antigas, as partes em ruínas da época anterior às máquinas.
Assim que chegámos, a moça explicou a uma das mulheres que caminhavam pela rua que tinham encontrado “este garoto” perto da Vila dos Espelhos, quando voltavam da escola. Eu sabia que os marginais viviam em várias vilas, mas apenas em algumas, as mais centrais, havia o que chamavam escolas.
— Por que se chama Vila dos Espelhos? Como se chama esta? — perguntei.
— Primeiro, diz-nos o teu nome — respondeu a mulher, com o rosto sério, alta, morena ou bronzeada, não sei bem. Todos tinham uma aparência rude, com cicatrizes na pele, magros mas robustos, vestidos com trapos, roupas que provavelmente não tinham sido feitas por máquinas. Era o início do outono. Algumas pessoas ainda caminhavam pela rua, carregando maçãs, palha e coisas que eu não consegui identificar, em carroças estranhas com uma roda na frente, puxadas atrás por uma pessoa que segurava a carroça pelas duas pontas. Havia também animais — ovelhas e cabras — passando e desaparecendo no final da rua.
— O meu nome é Pedro — respondi.
— E quem são os teus pais?
— Eu venho da cidade. Certamente não os conhece.
— Talvez sim, talvez não. Mas precisas de me dizer quem são se quiseres dormir numa cama esta noite. Caso contrário, podes dormir aqui na rua, ou então vais dormir com as cabras e os outros animais no estábulo.
— Pode ser com as ovelhas? — respondi. Eu não tinha ideia do que era um estábulo ou onde os animais dormiam. Devia ser uma casa, e as ovelhas pareciam-me bem fofinhas.
Enquanto isso, o fanfarrão — que aparentemente era irmão da moça que me defendera — aproximou-se.
— Mãe, não vês que o menino é um tolo! — disse ele, virando-se para a mulher.
A rapariga tinha desaparecido para lá da porta, e eu não me sentia mais protegido. Eu sou um tolo, pensei.
— Deves ter feito algo ruim para fugir. Não te preocupes; em breve descobriremos quem são os teus pais e te mandaremos de volta para o lugar de onde vieste. Enquanto isso, entra; acredita que não queres dormir com as ovelhas! — disse-me a mulher, demonstrando sinais de impaciência.
— A propósito, o meu nome é Elisabete.
— Prazer em conhecê-la. Obrigado por me ajudar — respondi.
— Estes são o meu filho Tomás e a minha filha Joana. O meu marido foi fechar o gado e deve chegar em breve.
— Certo — respondi.
Já tínhamos entrado na casa.
Havia uma salinha com sofás velhos e uma pequena lareira. No canto, havia uma coisa de ferro com lenha em baixo e panelas em cima.
— É um fogão a lenha. Aqui precisamos cozinhar a comida — explicou-me Elisabete. — Cozinhar é assar, ferver ou grelhar. Não comemos carne crua. Frutas e alguns vegetais podem ser comidos crus, mas não carne e peixe — informou-me.
O marido entrou; explicaram-lhe quem eu era, ele olhou para mim e sorriu. Parecia um homem muito simpático. Começou a escurecer, mas não havia lâmpadas. Era fogo o que iluminava tudo. Pediram-me para ter cuidado e não brincar com as velas, porque eram fogo de verdade e, ao menor descuido, eu poderia incendiar a casa inteira, connosco lá dentro, se não conseguíssemos sair. Não toquei mais nas velas. Tomás riu e trouxe uma para perto de mim para me assustar, mas o pai agarrou-o pela orelha, tirou-lhe a vela e fê-lo sentar.
— Fizeste alguma maldade deste género e foi por isso que fugiste da cidade? — perguntou o homem.
— Não, foi pior. Cortei o cabelo sedoso da minha linda irmã com uma tesoura enquanto ela dormia — confessei.
Assim que disse isso, por algum motivo, todos caíram numa grande gargalhada. O rapaz deu-me um tapa nas costas e disse:
— Parabéns, miúdo! Nunca pensei nisso, mas não daria certo com a minha irmã; ela tem o cabelo mais curto e desgrenhado do que o meu!
A irmã, ainda a rir, atirou-lhe com o caroço de uma maçã, mas não ficaram zangados. Todos pareciam felizes depois de eu ter contado a minha triste história.
Ainda a rir, Elisabete interrompeu:
— Isso não é nada sério nem importante. O cabelo volta a crescer. Aqui, às vezes, precisamos cortá-lo curto, à máquina zero, devido às pulgas e aos piolhos. Não é conveniente no inverno, mas, se for preciso, nós cortamos. Não tem problema nenhum. Quantos anos tem a tua irmã?
— Tem 15.
— Então ainda tem muito tempo para usar cabelo comprido. Daqui a um ou dois anos, ele vai voltar a crescer. Ela tem assim tantas festas para ir? — disse Elisabete, num tom de troça.
Estranhamente, eu entendi. Tínhamos tudo, mas as festas eram raras, e eram só com pessoas da nossa rua.
— Não te preocupes, tudo se resolve; a única coisa sem solução é a morte — argumentou o homem, levantando-se e passando a mão pela minha cabeça. Era hora do jantar.
— Vamos, todos, para a mesa. Amanhã pensaremos numa solução.
Estávamos a ir para a mesa quando Tomás me puxou pelo braço e perguntou:
— O que é que os teus pais disseram quando viram o que fizeste? Como é que te castigaram?
— Eles não me castigaram; ameaçaram-me com a máquina de consertar cabeças e eu fugi.
Tomás empalideceu. Parecia que eu o tinha ameaçado com fogo. Soltou o meu braço e foi até à mesa de jantar.
Comemos um tipo diferente de carne, com um gosto um tanto estranho que eu nunca tinha experimentado e que, surpreendentemente, vinha com ossos — ossos extremamente duros, impossíveis de mastigar. Eles explicaram-me que era frango e que os ossos não eram para comer. Com a carne havia algo laranja, algo verde e algo branco. Era diferente, mas não era mau.
A pior parte era ir à casa-de-banho. Tínhamos de sair de casa e ir para fora. Havia uma casinha só para isso, e cheirava mal! Horrível! Pensei: as piores coisas de estar fora da cidade eram as casas-de-banho, a falta de electricidade e o frio. A casa estava um pouco fria, apesar de todos os fogos acesos. Mas eles podiam socializar, fazer festas, ir à escola, rir alto, chorar e fazer travessuras, e nada os incomodava — excepto a morte, aparentemente.
Ao sair, olhei para o céu e fiquei boquiaberto — uau. Eu nunca tinha visto o céu nocturno, com todas as estrelas e uma nuvem branca abrindo caminho no centro.
— É a Via Láctea, a nossa galáxia — comentou Joana enquanto se dirigia para a casa-de-banho.
Depois, fui dormir. O quarto de Tomás tinha duas camas, uma em cima e outra em baixo. Era um beliche. Antes, a Joana costumava dormir lá, mas agora tinha um quarto só para ela. Bom para ela, pensei. Enquanto isso, Tomás começou a tratar-me um pouco melhor.
Estávamos os dois deitados, e comecei a perguntar-lhe sobre a escola e o que ele aprendia lá. Disse-me que aprendia matemática, história, literatura…
— Literatura? O que é literatura? — perguntei.
— É sobre livros que contam histórias. Não acredito que tu não os tenhas! O que fazes quando não tens nada para fazer?
Era um pouco complicado explicar-lhe a máquina de férias. Além disso, nunca tínhamos “nada para fazer”, além de comer e dormir.
— Assistimos a filmes — respondi.
— Já vi filmes antigos na escola. Às vezes, eles conseguem arranjar electricidade para fazer a máquina funcionar. Não sei se a trazem da cidade. Bem, literatura é como filmes, mas escritos. Lês e as imagens dos filmes formam-se não numa tela, mas na tua imaginação. Claro, cada pessoa é diferente. Cada pessoa cria imagens diferentes, mas a história é a mesma para todos. Nos filmes, a imagem é uma só.
— Parece confuso.
— Só é confuso porque, na cidade, vocês são todos uns atrasados mentais.
Fiquei triste e em silêncio.
— Vá lá, não fiques de mau humor. Não é culpa tua. Os teus pais preferem o conforto ao conhecimento e à liberdade. Temos coisas boas aqui, mas também há conflitos, problemas, e toda a vez que alguém tenta desenvolver algo para o nosso bem-estar — como electricidade ou um telefone entre aldeias — algum fanático vem e destrói tudo. Eles não querem tecnologia nenhuma porque a tecnologia levou ao que levou, e por isso é terrível. Mas não se importam em usar explosivos e matar pessoas.
— Como assim? Vocês poderiam ter luz e casas-de-banho, mas não têm porque há gente má que explode tudo?
Tomás desceu do beliche e sentou-se ao meu lado para ficar mais confortável.
— O que aconteceu é que, depois da crise climática, veio a ditadura das máquinas — onde vocês moram, infelizmente.
Os meus olhos arregalaram-se de espanto.
— Sim, vives numa ditadura. Não és livre, mas pensas que és — ou nem pensas nisso. As melhores ditaduras — explicou o meu pai — são aquelas que impedem os homens de pensar por si mesmos e os fazem acreditar no que lhes dizem. O teu governo diz que quer que sejas feliz e que está a proteger-te, a ti e ao planeta, de todos os males do mundo. É por isso que eles vos sobrecarregam com máquinas, entretenimento que supostamente satisfaz todas as vossas necessidades. Com isso, os humanos tornam-se uma espécie obediente e controlada, que faz o que lhe é dito e não causa problemas. Esse és tu.
— Nós, por outro lado — continuou — deixámos esse mundo para sermos livres, pensarmos por nós mesmos, mas, para isso, precisamos estudar, ler, escrever e todas as outras coisas. Portanto, temos o conhecimento para reinstalar tecnologias como telefones, electricidade, abastecimento de água e tudo o mais. Mas há pessoas que não querem porque temem que o que resta do mundo livre sucumba novamente à vontade de alguns. É uma ironia. Vocês têm a tecnologia, mas não sabem como funciona; nós sabemos como funciona, mas não a usamos porque temos medo de nos tornarmos escravos.
O meu pai é diferente. Ele argumenta que a tecnologia é boa quando serve a todos os humanos sem distinção, desde que eles possam escolher por si mesmos o que querem; e que viver como bárbaros da pré-história não faz sentido; e que, com educação mas também com ética, podemos reconstruir o mundo e até libertar as cidades submissas.
— O que é ética?
— É uma das principais matérias que estudamos, do primeiro ao último ano da escola. Ensina a fazer o bem e a não prejudicar ninguém, o planeta ou outras espécies.
— Mas tu…
— Sim, eu fui um pouco mauzinho contigo no começo! Precisas de entender que somos humanos, não máquinas. Portanto, não somos perfeitos. O importante é não falhar em coisas essenciais e não provocar a mesma pessoa por mais de doze horas seguidas. Como podes ver, ainda estou dentro do cronograma! — e riu.
Eu ri com ele também.
— Podes ler-me um pouco de literatura? — perguntei.
Tomás suspirou.
— Não tenho nenhum bom livro aqui, só alguns antigos, de quando a minha irmã era pequena. São poucos livros, e precisamos emprestá-los. São propriedade da comunidade. Galinhas, cabras, ovelhas e plantações, cada família tem as suas. Pode-se trocar ovos por milho ou ferraduras no ferreiro. Mas livros, escolas, florestas, estradas e praças são de uso comum. Tenho este da minha irmã. Continua aqui porque ela nunca quis doá-lo. Apegou-se a ele. É uma cópia de outro livro — um livro mágico — do século XX.
— Um livro mágico! E que magia tem este livro?
— O ferreiro, que costumava passar as noites de inverno aqui quando éramos pequenos, disse-nos que, com a edição original, podíamos entrar no mundo das histórias e encontrar respostas para todas as nossas perguntas! E que a edição estava na antiga biblioteca da cidade. Ele gostava de nos entreter com fantasias.
— O que é uma fantasia?
— Algo que não existe. Só existe na nossa cabeça.
— Também nos disse, para nos assustar, que a biblioteca é assombrada por uma senhora idosa de óculos. Enfim, histórias… Eu nem sabia que este livro ainda estava aqui. É sentimentalismo infantil, mas tu também és um tolo!
Tomás leu e as imagens formaram-se na minha cabeça automaticamente, como ele tinha explicado, sem que eu as visse numa tela. Talvez Tomás estivesse a mentir e o livro não estivesse ali por acaso. Talvez ele acreditasse no poder do livro; talvez fosse importante para ele, e não para ela, pensei.
Então adormeci.
Quando acordei, Tomás já não estava na cama. Apenas a sua mãe, Elisabete, e o seu pai, José, estavam na sala de estar. Assim que saí do quarto, deram-me comida: iogurte natural — um pouco amargo demais para o meu gosto — e queijo fresco. Eu preferia o queijo com algo doce chamado marmelada. Delicioso. Os dois olhavam para mim, à espera de que eu terminasse de comer.
Antes que eu pudesse pedir outra fatia de marmelada, Elisabete sentou-se à mesa e disse:
— Já sabemos que os teus pais são o João e a Rute. Nós conhecemo-los bem. Ajudaram-nos várias vezes quando precisávamos de medicamentos e outras coisas que não existem aqui. Apesar do perigo que enfrentam — e não é pequeno — eles sempre nos ajudaram e nunca pediram nada em troca. Eu queria dar-lhes maçãs e geleia natural, mas eles nunca quiseram. Talvez com medo de que um dos filhos pequenos não entendesse a situação e começasse a falar, ignorando as câmaras de vigilância. Conhecendo-os tão bem, sabemos que, mesmo que fizesses algo muito pior do que cortar o cabelo à tua irmã, eles jamais te mandariam para uma máquina de consertar cabeças!
— Sim, garoto — continuou José — eles sabem o que acontece com quem vai para lá. O irmão do teu pai foi mandado para lá. Uma vez, quando ainda eram pequenos, brincavam na rua e, por causa de um brinquedo — coisa de crianças — os dois pegaram-se à porrada. Acho que a vigilância era ainda mais rigorosa naquela época. A máquina apareceu imediatamente. Mas o teu pai fugiu o mais rápido que pôde. O teu tio ficou lá, à espera do inevitável. As pessoas eram ensinadas a deixar a justiça servir-se. Mas o teu pai fugiu e conseguiu atravessar campos sem fim, escondendo-se e evitando todas as pessoas, até chegar a esta cidade.
— O meu pai não é desta cidade? — perguntei.
— Não. O teu pai é de um lugar mais ao sul. Ele era pele e osso quando o encontraram na entrada, antes do início dos muros. A família que o encontrou havia perdido um filho para a máquina de conserto de cabeças. O filho desse casal ainda estava vivo na época mas, como acontece com todos os que vão para a máquina, aquilo não é viver propriamente. O casal percebeu que um menino naqueles trapos, quase morto, nos arredores da cidade, só podia estar a fugir da justiça das máquinas. Levaram-no para casa, cuidaram dele e deram-lhe o nome do filho que pouco tempo viveu depois disso.
A expectativa de vida daqueles que entram na máquina é muito curta — dez anos, no máximo. Não sei por que fazem isso. Porque são sádicos! — resmungou José. — Não era melhor dar um tiro na gente, como antigamente?
— Dar um tiro? — perguntei.
— Sim. Atirar. Bang, bang, e estás morto — respondeu ele, inclinando-se para mim com os olhos arregalados.
Também eu arregalei os olhos. Já não tinha fome. Além disso, estava perplexo com tanta informação.
— Bem, para resumir: o teu pai jamais te daria um tiro. Entendes? Enfia isso na tua cabeça! Então, vou levar-te de volta. Eles devem estar preocupados.
A verdade é que o meu pai nunca mencionou a máquina de consertar cabeças, nem nos ameaçou com tal coisa. Era mais a minha mãe, quando realmente perdia a paciência porque nos mordíamos ou puxávamos o cabelo um ao outro, a minha irmã e eu. Não tínhamos muito que fazer; éramos irmãos e passávamos muito tempo em casa.
No caminho de volta, José ensinou-me novas técnicas para escapar à vigilância e disse-me que havia algo diferente na Central. Às vezes, a vigilância parecia funcionar como antes, mas outras vezes parecia estranha.
— É melhor ter cautela. O problema é que ninguém sabe o que está a acontecer na Central. Talvez esteja a acontecer alguma revolução, mas nós aqui nunca saberemos de nada — disse ele, falando mais para si do que para mim.
Cheguei. Os meus pais estavam tristes, mas abraçaram-me e agradeceram a José. Eles não estavam zangados comigo, mas algo estava errado. Algo tinha acontecido enquanto eu estava fora.
Depois soube que Maria tinha corrido para a cidade à minha procura. Ela não estava acostumada a sair de casa, não sabia andar em terrenos irregulares. As ruas, naquela época, não eram bem conservadas. Os carros não circulavam e as pessoas também não deveriam andar por aí. Havia buracos abertos em algumas ruas. Maria não viu que a tampa do esgoto faltava bem no meio do caminho. Pisou no buraco, caiu, bateu com a cabeça, sangrou, desmaiou e morreu.
Os meus pais tentaram chamar a máquina médica, a máquina de enfermagem, mas nada apareceu. Eles trouxeram o corpo para casa e, mais tarde, foram contactados pela Central. Disseram que poderiam devolver a minha irmã viva porque estavam a experimentar, “com bons resultados”, a “máquina da vida”. Os meus pais concordaram — e ela voltou. Mas voltou como todos os que haviam sido colocados na máquina de consertar cabeças.
Assim que ouvi esta história, o meu coração partiu-se ao meio. Nunca tinha sentido tanta dor. Como pude ser tão estúpido, tão infantil, tão tolo… decidi que queria morrer.
“Para tudo há uma solução, excepto para a morte”, lembrei-me.
A minha mãe e o meu pai viram isso nos meus olhos e abraçaram-me, ambos ao mesmo tempo. Disseram-me que a culpa não era minha; era deles, que nunca deveriam ter-me ameaçado com uma coisa tão abominável, e que todos nós deveríamos ter deixado a cidade para “viver como pessoas” há muito tempo — disse o meu pai. Acho que entendi isso.
Mas eu precisava encontrar uma solução, uma solução para a morte. As pessoas dizem que isso não tem solução, mas o que mais eu poderia fazer? Eu tinha de tentar.
Quando todos dormiam, peguei a mão da minha irmã, pedi que me seguisse com cuidado e fui procurar a biblioteca na parte antiga da cidade, com uma lanterna na mão. Quando a encontrei, sorri de alegria. Era enorme. As portas estavam abertas e os vidros das janelas estavam quebrados, mas as estantes ainda estavam cheias até ao tecto alto. Sentei a minha irmã perto de uma das janelas e comecei a procurar o original do livro que eu tinha visto na casa de Tomás — o livro mágico.
Subi e desci as escadas a correr, prateleira por prateleira. A biblioteca era grande demais para ser explorada numa noite. Eu não conseguiria encontrar o livro. Além disso, pensei, eu não sabia ler e talvez as imagens no original não fossem as mesmas do livro.
Um raio de sol atingiu um pedaço de vidro quebrado de uma das janelas mais altas. Maria permanecia imóvel, no mesmo lugar, olhando para mim, com um sorriso quase doce, quase estúpido — era difícil qualificar. Percebi que lágrimas de desespero começaram a rolar pelo meu rosto. Os meus olhos ardiam. Eu tinha de voltar antes que os nossos pais acordassem.
Aproximei-me para sair e então notei que Maria tinha nos braços, contra o peito, um livro, e que os seus olhos estavam quase a transbordar de lágrimas também. Peguei no livro dela — e então vi: é isto, deve ser isto! O livro mágico!
Abri-o, mas nada aconteceu. Tomás tinha-me dito que, para entrar, era preciso ler as primeiras palavras. Eu não sabia ler, mas Maria fora devolvida com essa habilidade. Pedi que ela lesse, e ela leu:
— Era uma vez…
Mal começou a ler, um turbilhão de vento formou-se ao nosso redor. Ouvi os últimos vidros das janelas quebrar e os livros voarem das prateleiras, antes de aterrámos — como se estivéssemos a cair do segundo andar de uma casa — num prado de relva verde com flores amarelas e brancas.
Maria levantou-se num pulo.
— Pedro, és mesmo idiota? Que raio estás a experimentar? Desliga a máquina, por favor!
Eu ainda estava no chão, sentado, sentindo dor. Arregalei os olhos e exclamei:
— Voltaste! Funcionou! A magia funcionou!
— Solta-me! Qual magia? Que maneira parva de passar o tempo! Desliga a máquina de férias, por favor! — gritou ela, empurrando-me de volta para o chão.
Olhei ao redor. A magia do livro funcionou, mas eu não sabia como sair dali. Esqueci-me de perguntar essa parte. Permaneci prostrado no mesmo lugar. Contei à minha irmã onde estávamos e o que tinha acontecido. Ela não acreditou em mim.
Comecei a chorar, e então ela estendeu-me a mão, puxou-me pelo braço para me ajudar a levantar e disse:
— Seja lá o que for, uma máquina ou um livro, vamos arranjar maneira de sair daqui! És tão tolo; é lamentável — disse ela, e abraçou-me.
Fiquei pasmo. Ela nunca me tinha demonstrado afecto antes. Maria nunca me tinha dado um abraço.
Começámos a caminhar e, no caminho, encontrámos uma família que parecia estar a fazer um piquenique. Não tenho a certeza se era uma família, mas talvez fosse. Eram sete anões, uma senhora mais velha, uma linda moça e um belo rapaz.
A moça chamou-nos:
— Olá! O que vocês dois andam a fazer por aqui? Estão perdidos?
— Sim… um pouco — respondi.
— Ou vocês estão perdidos, ou não! Qual é que vai ser? — perguntou um dos anões.
— Não liguem ao Zangado; ele é sempre assim. O meu nome é Branca de Neve. Aqui estão o Príncipe, a minha madrasta e os meus amigos anões.
— A Branca de Neve do filme? — perguntei.
— Eu sou a Branca de Neve do livro — respondeu ela — mas acho que a do filme deve ser igual a mim.
— Sim, é igual — disse Maria. — Onde estamos, afinal?
— Já expliquei — respondi.
— Ok, ok, filme ou livro, temos de encontrar a tecla “ESC.” — respondeu ela.
— Sim, mas primeiro comam connosco. Há bastante comida e devem estar com fome — disse Branca de Neve.
— Sim, estamos — respondi, olhando para a comida na toalha de mesa.
Ao longe, os meus olhos encontraram os da senhora com ar de rainha da cocada — ou última bolacha do pacote — mas que usava óculos.
— É a tua madrasta — sussurrei para Branca de Neve.
— É, sim.
— E ela usa óculos?
— Ela já não consegue enxergar nada. Uma senhora de fora, como vocês, veio aqui e deixou-lhe os óculos. Essa senhora disse que, mal entrou no livro, já não precisou deles.
— Mas a madrasta é má! Porque é que ela está aqui contigo?
Branca de Neve sorriu e respondeu:
— Ah, ela mora connosco na parte do “e viveram felizes para sempre”, que é o que fazemos quando alguém termina de ler a nossa história.
— E a madrasta também é feliz?
— Não sei. Mas não há nada de errado em deixá-la ali, no seu canto, à espera que alguém leia a história novamente, para que ela possa ser jovem, bonita e má outra vez — isso sempre lhe traz felicidade suprema.
Branca de Neve sorriu com doçura.
— Vamos almoçar! — disse ela, apontando para a toalha branca sobre a qual a comida estava disposta.
A comida era linda de ver e simplesmente deliciosa. Sem dúvida, a melhor coisa que eu já tinha provado. Na toalha de piquenique da Branca de Neve havia maçãs vermelhas e deliciosas, morangos silvestres, mirtilos, pêssegos e muitas outras frutas que podiam ser colhidas das árvores daquele reino. Havia também pão, queijo, mel, bolos e muitas coisas saborosas que em nada se pareciam com a comida da máquina. Era fantástico!
Enfartado, ficar ali para sempre não me pareceu uma má ideia. Mas eu estava preocupado.
— Não te preocupes, encontraremos maneira de desligar a máquina — disse a minha irmã, tentando tranquilizar-me.
— Não estamos numa máquina! — insisti.
— Tudo bem — respondeu ela. — Estamos num livro, o que me parece o mesmo. Apenas não vejo o botão para desligar.
O anão chamado Zangado ouviu-nos e perguntou:
— Então, de onde é que vocês vieram?
— Eles são de fora! — respondeu Branca de Neve.
— E lá fora, como são as coisas? — perguntou o anão Mestre.
— São boas — respondeu Maria — mas não tão boas quanto aqui.
Não consegui conter-me:
— Não são nada boas; são uma porcaria! A comida é péssima, vivemos numa ditadura e já nem minas de diamantes há, porque as pessoas têm máquinas de fazer diamantes e, como os diamantes são inúteis, ninguém os quer!
— As pessoas não querem diamantes!? Conta-me outra história, miúdo — resmungou Zangado. — Eu não vou cair nessa esparrela duma ditadura afogada em pedras preciosas.
— Os diamantes podem ser inúteis, mas são deslumbrantes… não são, madrasta? — perguntou Branca de Neve.
A rainha má murmurou, com desdém:
— Mais belo do que diamantes, só eu!
A risada foi geral. Até Zangado riu, e todos nos convidaram a ficar. Mas não podíamos. Tínhamos de encontrar o caminho para casa.
Então despedimo-nos e começámos a caminhar. Talvez encontrássemos uma fada que pudesse ajudar-nos. Afinal, aqueles eram reinos de sonhos e magia, operando sob regras diferentes das do mundo exterior.
Todos os príncipes e princesas, heróis e monstros, ogres e meninos, ratos e formigas, coelhos, lobos e lebres nos convidaram a permanecer nas suas histórias. Sentimo-nos tentados a ficar, mas, com a nossa mãe e o nosso pai à espera, isso era impossível.
Perguntámos às fadas se tinham magia para nos tirar dali ou conheciam alguém que tivesse.
Já sem entusiasmo, quando passávamos perto de uma torre muito alta, uma princesa acenou-nos lá de cima:
— Todos aqui estavam preocupados convosco! Só um momento!
A princesa atirou do alto o que parecia uma longa trança de cabelo loiro, pela qual desceu. Veio contar-nos que várias fadas e princesas se reuniram para encontrar uma solução para o nosso caso.
— Ninguém sabe ao certo o que aconteceu à humana que esteve aqui antes — aquela que deixou os óculos para a madrasta da Branca de Neve — mas dizem que ela foi além das últimas páginas, para as montanhas negras ao longe. Nenhum de nós ousa ir naquela direcção. Poderíamos simplesmente desaparecer e nunca mais sermos vistos.
— E ela foi para lá? — questionei.
— Foi. De acordo com algumas fadas, bruxos e bruxas, aviadores, camionistas e outros viajantes do oculto e praticantes de histórias extremamente perigosas, aquelas terras não causam mal aos humanos. Os humanos podem atravessá-las sem problemas.
— Como assim?
— Existem alguns seres lá, mas são bem diferentes de nós. Certamente têm mais poder para não desaparecerem por lá. Não precisam dos humanos para existir. Existe até uma ninfa que realiza desejos. Mas cuidado! Os humanos podem atravessar essas terras, mas elas são perigosas — e a ninfa, como todas, pode ser traiçoeira.
— Então vocês precisam dos humanos? — perguntei.
— Claro! Alguém nos criou. A nossa forma veio da imaginação de alguém e é partilhada nestas páginas. Além das montanhas está o reino das histórias que ninguém escreveu ainda. É um lugar deserto e inóspito, povoado apenas por fantasmas, coisas disformes e alguns seres com magia de verdade. É um reino de sombras e escuridão.
Eu estava assustado, depois dessa descrição dada em plena luz do dia por uma princesa sorridente sob um sol brilhante. Mas eu não podia ter medo; tinha de devolver a minha irmã aos meus pais. Eu não podia partir-lhes o coração outra vez.
Maria puxou-me pelo braço:
— Vamos então. Estou a ficar cansada de vaguear por aqui sem encontrar nada. Vamos ver no escuro.
A princesa acenou-nos adeus e desejou-nos boa sorte. Eu comecei a correr atrás de Maria, que caminhava rapidamente em direcção à escuridão.
A noite cobriu-nos completamente e começámos a ouvir murmúrios. Se eram fantasmas ou bruxas, não sabíamos. Com a lanterna que eu tinha trazido de casa a iluminar o caminho inexistente, continuámos a caminhar. O chão parecia liso, mas caminhávamos sobre uma camada de neblina. Eu tinha medo de tropeçar a qualquer momento. Ao nosso redor, nada era visível. Caminhávamos envoltos numa nuvem de escuridão.
Eu estava com frio e fome, mas Maria continuou a caminhar, e assim andámos por muito tempo.
A escuridão começou a clarear, em certo ponto, e notei que estávamos a andar à beira de um precipício numa montanha que desaparecia no céu. Quase só tínhamos espaço para colocar um pé de cada vez, ou cair num lugar sem fundo. Levei um susto mortal, mas continuei. O vento aumentou e começou a nevar. Não sei como, mas continuámos a caminhar — Maria à frente, eu atrás.
Num momento, e felizmente, a paisagem mudou. Estávamos num vale, e um rio corria abaixo. As águas do rio não eram azuis nem cinzentas, refletindo o céu, nem transparentes, mostrando o fundo. Eram negras, como sangue velho. Tínhamos sede, mas não bebemos.
Ouvimos o estalar de galhos e um sussurro. Olhámos em volta e, quando parecia não haver nada atrás de nós, um ser viscoso — meio humano, meio serpente — emergiu das sombras. Demos um pulo de medo. O ser parecia ter um belo rosto de mulher, até que abriu a boca e revelou dentes afiados. O meu coração bateu com força. Gritámos novamente e começámos a correr o mais rápido que podíamos, sem olhar para trás, sem descansar, até cairmos exaustos aos pés de outra moça — de rosto bonito — que nos estendeu a mão.
Assustámo-nos outra vez, recusámos a mão e caímos sentados no chão.
— Medo da Clarice? — perguntou a moça, inclinando a cabeça.
— Quem é a Clarice? — perguntei, ainda a tremer.
— A serpente.
— Aquilo era uma serpente!?
— É basicamente uma serpente, sim… mas às vezes faz cara de boazinha — disse a moça, que tinha braços, pernas e dentes normais.
Levantámo-nos e explicámos que estávamos à procura de uma ninfa que nos pudesse ajudar a voltar para casa. A mulher — que, olhando melhor, não parecia assim tão jovem — sorriu e disse:
— Hoje não temos ninfas! Voltem amanhã.
— Não podemos. Precisamos de voltar hoje. Precisamos de ajuda — expliquei.
— Estou cansada disto — disse Maria, suspirando. Foi sentar-se numa poltrona que, de repente, apareceu num canto.
Instantaneamente, estávamos — aparentemente — no jardim da mulher: um lindo jardim com árvores de fruto e muitas roseiras.
— Sinto muito. Ninfas são difíceis de encontrar e não fazem muito pelos humanos — disse ela com uma voz entre doce e irónica. — Mas eu posso ajudar. Vou mandar-te para casa, sim.
Apontou uma varinha mágica para mim. Os meus pés congelaram no lugar. Eu não conseguia mexer-me. Maria estava sentada na cadeira grande, como se nada daquilo tivesse a ver com ela; como se estivesse novamente sob o feitiço de uma máquina.
— Vou mandar-te para casa agora, mas Maria fica aqui comigo, porque ela já só pode viver em histórias — na imaginação e no coração de quem as lê.
— Mas já ninguém lê! — gritei, em voz alta, para a mulher que agora mais parecia uma bruxa.
A mulher sorriu, de um modo quase divertido:
— Ora, Pedro, quase ninguém lê. Não seja pessimista!
— De modo nenhum! Eu não vou sem a minha irmã! Eu não vou, eu não vou sem a minha irmã! — gritei com todas as minhas forças, de olhos fechados e mãos cerradas.
— Pedro, pára de gritar, idiota! Tenho exame amanhã! Eu não vou contigo a lado nenhum, juro! — gritou Maria.
Quando abri os olhos, ela estava parada na entrada do meu quarto, com o cabelo cortado, e tudo parecia outra vez normal — ou tão normal quanto podia ser.
Pulei da cama e abracei-a.
— Com certeza, a gripe mexeu com a tua cabeça… ou queres infectar-me com o teu vírus — resmungou Maria, empurrando-me. — Tu definitivamente não estás doente. Isso é fita para não ires à escola.
— Cortaste o cabelo? — perguntei. Vi que a minha irmã, como no sonho, tinha agora o cabelo muito curto, quase rapado, como se tivesse tido piolhos.
— Sim. Qual é o problema? Está na moda!
— Eu gostava mais dele comprido.
— Está bem… olha para mim e vê se me importo com o que tu gostas.
Maria saiu do meu quarto e bateu com a porta fazendo um grande estrondo.