Livros

Pedro e a Máquina 
de Consertar Cabeças 
e outros contos

Este livro é composto por três contos distintos cujo tema geral é o que significa ser humano e não um outro animal. Será que é melhor ser gente ou ser rato? Ler e pensar ou deixar os cientistas decidir? Viver em harmonia com a natureza ou não?
 
Pedro e a Máquina de Consertar Cabeças é o mais infantil dos três livros desta série, apesar de poder interessar a adultos de qualquer idade. Pedro, o personagem principal, vive num futuro distante em que os humanos não precisam fazer absolutamente nada para viver. Nesse futuro existem máquinas que fazem tudo. É um mundo perfeito no qual pensar não é preciso. Para os que não são felizes vivendo nele existe uma máquina que conserta o cérebro e deixa toda a gente tranquila. Será assim?
 
Albertina no Reino dos Ratos
Albertina, também conhecida como Maria, vivia em Londres quando foi raptada por um bando de ratos e conduzida aos subterrâneos da cidade. Aí conhece um rato português que lhe explica as razões por que foi raptada – ajudar os ratos num plano! Será que o plano resulta? Será que a moça consegue sair do buraco e encontrar o caminho para casa?
 
 
O Meu Amigo Lobo
Escrito numa manhã em Londres, em 2018, este é um conto que nos leva a um distante lugar em Portugal onde os lobos habitam ainda. Contudo, mais do que uma história sobre lobos, esta é uma história sobre o difícil que é ser humano. Será que é melhor ser gente ou ser um lobo? O que escolheríamos se pudéssemos escolher? Neste conto final, voltamos a encontrar uma referência Pedro e Albertina, também amigos do “meu amigo lobo”.

Excerto 1

As melhores ditaduras, o meu pai explicou-me, são aquelas que impedem os homens de pensar por si mesmos e acreditam no que lhes dizem. O teu governo diz que quer que sejas feliz e que está a proteger-te, a ti e ao planeta, de todos os males do mundo. É por isso que eles te sobrecarregam com máquinas, entretenimento que supostamente satisfaz todas as tuas necessidades. Com isso, os humanos são uma espécie obediente e controlada que faz o que lhe é dito e não causa problemas. Esse és tu. Nós, por outro lado, deixámos esse mundo para sermos livres, pensarmos por nós mesmos, mas para isso precisamos estudar, ler, escrever e todas as outras coisas. Portanto, temos o conhecimento para reinstalar tecnologias como telefones, eletricidade, abastecimento de água e tudo o mais. Mas há pessoas que não querem porque temem que o que resta do mundo livre sucumba à vontade de alguns, novamente. É uma ironia. Vocês têm a tecnologia, mas não sabem como funciona; nós sabemos como funciona, mas não a usamos porque temos medo de nos tornarmos escravos.

Excerto 2

– Não é nada disso! Lá em cima não seria capaz de exercer uma destruição controlada, como aqui desejamos. Bem, eu não desejo nada. Eu só quero ir para casa! O uso de venenos, ou armas químicas, poderia pôr em risco todo o ecossistema, envenenar o esgoto e destruir toda a população. Não é isso que se quer. Também não haveria suficientes fundos para investir numa solução desse género. Depois poderia desencadear uma guerra, se se soubesse que os ratos andam a envenenar outros ratos. Em pequenas doses, ao longo do tempo, ninguém dá conta, mas com um cenário como o que se pretende aqui, não dá. Ora bem, uma guerra aberta para eles não é uma coisa má. Os que estão acima de nós não se importavam. O problema é que, com o poder que as armas hoje em dia têm, nunca se sabe no que isso ia dar. Podia apanhá-los a eles, sabe-se lá! De modo que se decidiu arranjar um engodo, , uma rapariga portuguesa, conhecida por matar ratos, escapa-se da tutela do rato português, chega ao jardim zoológico e solta a jiboia.

Excerto 3

– Segundo os uivos, uns seres mais avançados do que os humanos e as raposas, uns tais extraterritoriais que têm civilização suficiente não só para modificar lá o sítio onde vivem, mas também fazer experiências em outros territórios. Quando o meu tio-avô contou a história falava em outros territórios apenas. Nós não temos essa coisa dos planetas. Nós temos territórios e basta!
– A parte interessante da história não foi as raposas darem cabo do planeta, ou do território com a sua civilização, as suas mãozinhas.
– Não? Raposas com pelo e rabo, mas de saltos altos, focinho e batom parece-me engraçado. Não digo interessante, mas é engraçado!
– O que há de dizer a civilização das panteras, quando alguém lhes contar que um dia existiu uma civilização de macacos pelados?
– Também tem a sua piada!
– Isso, rir é o melhor remédio!
– Então diz-me lá quem eram esses seres mais civilizados do que os civilizados?
– Eram uns seres que não usam mãos para transformar o mundo.
– Não!?
– Népia.

A Queda do Paraíso

Com a adição de um novo capítulo que faz uma revisão histórica completa, mas, espero, não aborrecida, esta é uma colecção de pensamentos que retratam um pouco da minha vida de emigrante em Londres, entre 2015 e 2019. Este é também um testemunho de época, embora seja um testemunho muito pessoal.
Entre 2011 e 2015 foram milhares os portugueses que tiveram de emigrar para encontrar trabalho, num surto comparável ao da década de 60 do século passado. Alguns, como foi o meu caso, eram jornalistas. A crise financeira iniciada nos Estados Unidos em 2008 veio somar-se à crise dos jornais que não encontraram uma estratégia eficaz para sobreviver à concorrência dos conteúdos on-line, gratuitos, iniciada um pouco antes. Estas foram as contingências históricas da minha emigração, mas não as suas contingências verdadeiramente humanas que a leitura do livro pode transmitir. Com partes para rir, outras nem tanto, este foi um modo de viver uma fase difícil que não trocaria por ficar no mesmo lugar para sempre. Nunca.

Excerto

Também fiquei muito baralhada a primeira vez que entrei numa auto-estrada. O garoto tinha-se esquecido do casaco do uniforme na aula de ténis. Era uma cabeça de vento, e eu ainda sou. Duas cabeças no ar juntas não podem dar certo. O campo ficava do outro lado da vila, mas havia bastante trânsito pelo centro àquela hora. Resolvemos contornar pela via circular externa! Correu tudo bem, tirando a parte inicial do garoto a gritar-me “get on the left lane, get on the left lane”! Sim, por um minuto o meu cérebro enganou-me e encostei-me à direita a pensar que essa era a faixa mais lenta. Ainda bem que o meu co-piloto de sete anos estava atrás para me corrigir. (Era um fofo que morria por uma palete de açúcar e um sorvo de vinagre, tudo coisas proibidas entre indianos talhados, de pequenos, para o sucesso.) Depois de alguns carros me terem apitado e ultrapassado pela esquerda, fiz pisca e encostei-me à esquerda e correu tudo bem. Há sempre gente apressada neste mundo a apitar por tudo e por nada!
Tudo isto aconteceu em 2015. Estava em Wimbledon e já sabia conduzir à inglesa às mil maravilhas no torneio daquele ano. Caiu uma chuva miudinha no dia da final masculina entre Novak Djokovic e Roger Federer. Serena Williams e Djokovic venceram e eu comi uma costeleta de vitela depois de dias e dias a comida utra-picante e a dar para o vegetariano.