Crónicas

Como criar um fascista

Quando nasceste, a liberdade já tinha acontecido. Não recordas nada do que existiu antes, mas ouves falar, muito, durante a infância, em casa, na família. Na escola, nada. Nunca se chega a essa parte. A história de Portugal é longa demais e parece que todos os anos começa no começo. Não recordas bem, a não ser a veemente insistência no Vasco da Gama, no Pedro Álvares Cabral e na divisão do mundo com o reino vizinho. Esse mesmo reino que depois tomou o nome de Espanha, mas tu sabes que nem sempre se chamou assim, como pensam os ignorantes, os mesmos que dizem “saúde” ou “santinho” e consideram “formal” o tratamento por você em português europeu. Tens vontade de intervir, colocar as coisas nos lugares “certos”, mas há demasiado barulho, muita gente a opinar e tu nunca terás razão. Estás certa, mas a razão é da maioria, ou de quem fala alto, e então estás totalmente errada.
Em criança, apesar das notícias do mundo, iguais às de agora, a ameaçar guerra e o apocalipse nuclear que tanto medo te metia, era tudo novo e alegre e vestido de esperança e desafio a tias velhas que tinham arcas fundas que haveriam de ser escancaradas, cortadas ao meio, expostas ao brilhante sol da liberdade.
Mas, como nasceste pau torto, não era a liberdade que te havia de endireitar. Disseram-te para esperar, que amanhã, sim, irias ser feliz. Mais tarde disseram-te para ir embora, que eras inútil, redundante e estavas a mais neste país.
E devias ter lá ficado, no esquecimento dum movimento constante que preencheu os teus dias de luta. Mas não aconteceu ser assim e então estás aqui, onde toda a esperança naufraga e as violetas de inverno derramam o frio perfume da saudade dum tempo interior ao mundo feroz. Olhas a cidade decrépita e vazia onde te perdes e pensas: melhor era perder-me na terra dos autocarros vermelhos, onde se pode trocar de trabalho ruim como se troca roupa da Zara em cada estação. Aqui oferecem-te “uma oportunidade”, daquelas que te tornam a causar pesadelos durante a noite e receio de acordar de manhã e fazem-te pensar no local como local assombrado, onde residem demónios e outros seres maléficos com negros poderes que escurecem a alma e se infiltram pelo corpo adentro, fazem brotar lágrimas no rosto, arder em chamas e tormentos de desadequação, ao mesmo tempo que te congelam o peito até quase não conseguires respirar. E, ainda assim, deves agradecer a oportunidade e agradecer ao teu país por te ter acolhido de volta, te ter a pagar impostos novamente; impostos sobre o que tens e não tens, por todo o sacrifício salgado da tua luz, até à mais ínfima centelha angariada a crédito.
Uma brasileira fala sem parar. Tu não consegues disputar espaço, a não ser à bruta, e depois recriminam-te, a rapariga chora e tu sentes-te mal. Colocam-te com outros animais humanos, tão diferentes de ti que não sabes como tirar do lugar onde estás um pouco de alegria, nem que seja por uma piada qualquer, inútil, provavelmente maldosa, irónica, daquelas que te fazem rir e, às vezes, fazem rir outros, (os teus antigos colegas, por exemplo, que até eram do Brasil – alguns), mas podem cair mal quando os outros são demasiado diferentes de ti, e não é por serem de outro país ou do teu, é por terem sido feitos com outro processador, mais produtivo, optimizado para a obediência a regras fixas e constantes, pré-definidas, sem dúvida. Tentas ser igual a todos, mas é demasiado difícil, quase impossível, trabalho de atriz de Hollywood. O teu processador não acompanha. Fica logo aborrecido. Queres fixá-lo na tarefa simples que até um criança de 5 anos é capaz de fazer, desde que seja normal, e consegues senti-lo descarrilar, numa fração de segundos, o teu cérebro claramente escorrega para fora da linha, do traço a seguir, fica fora de plano, num espaço vazio, onde não existe nada, absolutamente nada, quando todo o tempo que tem é esse pequeno meio segundo que faz toda a diferença. 
Depois de tanto tempo sem ninguém se atrever, nem sequer recordas a última vez, uma voz com um tom de humilhação começa a falar contigo, criticando-te, ao mesmo tempo que tentas concentrar-te em ouvir outra pessoa, porque faz parte da tua “oportunidade”, cruel destino, porque bem sabes o que a ti te custa ouvir as pessoas banais falar de coisas do interesse delas. Como não diz nada de mal, a tua reação provém doutra forma de comunicação, não verbal — o tom com que fala contigo, um tom de superioridade e arrogância inconfundível, ao qual reages sempre mal, porque és totalmente incapaz de conter um impulso quando te tentas focar em conter outro. Ou seja, estavas concentrada a tentar não deixares o teu cérebro descarrilar das palavras que estás a ouvir da pessoa que se dirige a ti por ser “cliente”. Essa pessoa não fala português, fala um inglês que não é bem inglês, é uma língua entre inglês e outra coisa qualquer. Apanhada desprevenida, acabas por dizer o que não devias, em português, e ainda por cima a uma barbie idosa, superior a ti em todos os sentidos possíveis e imagináveis, sobretudo no Instagram. És totalmente incapaz de disfarçar a raiva. O teu animal feroz nunca será um animal doméstico, para tua perdição.
Do outro lado da linha, uma estrangeira reclama em inglês sobre não ter um subsídio que tu também tens de ajudar a pagar. Ainda por cima é rude e dá-te uma raiva medonha, sim! A seguir a muita gente ruim nacional, aparece outro, com português macarrónico das Áfricas, que te custa perceber, perguntar-te alguma coisa e, quando tentas seguir o protocolo, o manual de instruções, porque tens de o seguir, porque é esse o procedimento, ele contesta e pergunta-te: “já sabes o meu nome, o que mais tu queres”? O que é que eu quero? Quero o trabalho que eu mereço e não este que me dói, onde tenho de disfarçar quem sou, sem conseguir, ouvir o que não consigo ouvir e, por adenda, já que estamos nisto, quero que tu te fodas, porque sou um ser humano, não sou a tua tia.
Então perguntais vós — é assim que se cria um fascista?
— Pode acontecer. É bastante provável. Quando não tens paz e te sufocam, podes começar a querer que estes ou aqueles se danem,, por algum ou nenhum motivo, e a não querer mais a liberdade para ninguém, a não ser a tua, claro, essa que pensas que ninguém ta tira, quando na verdade já não a tens.
— Já não tens?
— Não. Primeiro matamos a liberdade. Só assim eles sabem que é fácil “escolher” a ditadura. O povo “escolhe” a ditadura, como todos querem, fascista ou comunista, ou outra qualquer — uma em que “tu mandes” e os outros obedeçam.
— Então tornaste-te fascista?
— Não, camarada! “Eu sou parvo ou quê?”(citando José Mário Branco – FMI) O problema é que muito povo é feito parvo para escolher contra si próprio — marioneta massiva de meia dúzia de criadores. Primeiro matam a liberdade de poderes escolher quem és, tornando-te num servo e todo o servo tem de ter um senhor.
— E o que podemos fazer?
— Pouco ou nada, talvez. Comer, trabalhar, pagar impostos, morrer e deixar qualquer coisa para pagar ao coveiro, que para o padre não chega.

27 Dezembro 2025

Pão com açúcar

Quando eu era pequena falavam-me dum velho chalupa que caiu duma cadeira e pifou. 
As velhas tias ainda rezavam muito a um deus escuro e negro e mau, e até também a um outro pouca tripa, que prolongou o estado de sacristia, não fossem o fungos poluir demasiado o ar, se o vento de mudança abrisse e entrasse portas dentro, escancarado gavetas fechadas, a cheirar a naftalina, com os catecismos do espanhol de deus, em espanhol, a prometer infernos infinitos aqui e além, principalmente a tudo o que deixe óvulo ou esperma cair no vazio de horas gozadas à superfície do planeta plano. Homem na lua? Qual quê!
Observava de longe, no meu silêncio, e ouvia tudo o que as crianças não entendem nem devem ouvir. Tinha défice de atenção, mas no meu tempo não se usava; a atenção, só se usava o défice.
Salazar, salazar, salazar! Vinha eu a correr com o raspador na boca, embora usasse mais os dedos e a língua, metendo a cabeça diretamente dentro do alguidar do pão-de-ló, para grande indignação dos novos profetas das dietas saudáveis e eliminação de açúcares. Mas eu sabia que essas dietas não tinham autoridade nenhuma sobre mim, nascida no ano da liberdade e num tempo de transição culinária. A saúde é p’ra manhã, camarada! Primeiro o pão! Pão com açúcar? Dá, não havendo outro doce, varrida a caixa do tulicreme e com o frasco de nocilha (Nocilla) de Espanha lambido! O meu pai não se importava, e também nunca me obrigou a comer a sopa. Eu nunca comi sopa que não quisesse comer. Nasci em liberdade e democracia e cheguei no ano da luz elétrica! Pois foi.  Saneamento básico, só depois. Os meus irmãos são do tempo do leite em pó, mas eu cresci a acrescentar um dedo de açúcar em cima do iogurte Longa-vida e a recortar a flor dos pacotes da Agros, e quando vinha leite-magro, nos pacotinhos de palhinha, em vez de leite-achocolatado, já não bebia, porque não me apetecia.
Querem Salazar outra vez, vamos lá então organizar uma excursão, ao tempo das tias muito velhas, que recomendam muita continência e contenção. Adorava ver os jovens de hoje, num comboio para Portugal de meados do século XX, a irem visitar os seus progenitores, avós ou bisavós. A não ser uma mão ou duas deles, a maioria teria uma viagem muito doce. Seria açúcar para diabetes, bem necessários nos tempos que correm, para ver se os médicos nos passam aquelas receitas dos tais comprimidos milagre, que nos põe elegantes outra vez, nossa senhora carochinha… há cada gente tão nova a pensar que o progresso é um ditado, e o privilégio não é excepção, que o privilégio garantido é enxovalhado, rasgado, cortado, pisado, cuspido e colocado na rua como criminoso a veredito popular. Eles pensam que não, que a eles ninguém lhes toca. Ainda hão de querer açúcar e ter limão, de querer limão e ter fel, de querer fel e ter cal – em cima.


2024

Astrologia artística e outras habilidades

Prevejo que o povo descontente, porque lhe dói o dente, só ficará contente quando a República entrar nas canções populares dessa gente, como o apertem com ela, o carro da vizinha, o que elas querem, os peitos da cabritinha e outras assim, a pingar sebo com muito ranço e chicha de rapazolas e rapazinhas, com beiçolas gordas, vorazes, escancaradas, roncadaras e mais uns quantos qualificativos dos portugueses melhores do que os outros, os autênticos, os da raça pura e genuína. Bísara? Porco preto? Porco preto não. Ora, depois do povo ficar contente, tiver esta oportunidade única, prevejo um eclipse. Talvez espere um eclipse. Na verdade, espero é estar errada, mas creio que não, primeiro vão lá e depois… e como não têm nada dentro, desaparecem. Espero.
Talvez tenham mesmo de ir lá para desaparecerem, o que é lastimável, ainda por cima nas bodas de ouro minhas e do velho! Sou da geração rasca, sim! A que mostrou a nádegas àquele senhor a quem agora chamaram cadáver. Eu não! Só depois de morto alguém é um cadáver, claro. Não somos assim tão estúpidos os estudantes rasquíssimos que vos aturaram experiências como a PJA. Tendo passado a PJA, mais tarde mandaram-nos emigrar sobretudo aos das letras que não tinham tido a destreza de arranjar um tachito, de ronquito, leitãozito da República; a República das mamas ao léu, mas várias mamas, divididas por concelhos, em todo o país, mais serviços públicos, numa fila grande de unutilidade útil, que mantém algumas economias locais, constitui uma forma de subsídio geral, embora mais privado do que outros, e isso… E agora estamos nisto e eu sou rasca, do pior. Como não sê-lo? E andei a estudar para nada, mas não, mesmo assim não fiquei radical, não mudei o nome (como, por exemplo, mudar Preto para Leitão), e nem sequer vos mostro as nádegas. Sou mesmo rasca! Hum, do pior. E para advinha só me falta quem pague. 
Oh não! Obrigada, mas não. Se me aguentei 50 anos sem ir à masseira, não é agora que vou molhar o focinho. Obrigada pela oferta, à mesma. De coração. Sois uns fofos.


21 de Março, 2024

A compensação histórica pelo império dos outros

Eu exijo uma compensação histórica por não ter nascido em Lisboa, numa classe privilegiada, que talvez tenha enriquecido com tráfico de escravos, ouro do Brasil, pimenta da Índia, petróleo e diamantes de Angola, ou nada disso, seja apenas privilegiada, porque nasceu assim e eu não!
Na minha terra se calhar houve ouro, mas nesse caso terei de pedir o ressarcimento a Roma, ou Marrocos. Não sei. Há restos de uma coisa, que dizem ser romana, mas nunca ninguém foi lá escavar. Claro, Lisboa nem sabe que existe. Só se um dia quiserem fazer lá uma barragem, talvez descubram então, maravilha das maravilhas, que as ruínas do império, o outro, o mais antigo, também não sabem “nadar, yo!” (Black Company “Nadar”, 1994.
Isto aqui não interessa para nada. O que os rurais interessam ao país, sobretudo aos betinhos de Lisboa, como o actual Presidente de Portugal? Nada. Não é o meu presidente, que eu não votei nele! Há “não votos” de que me orgulho. Já votos de que me orgulhe é mais difícil. Também, dá igual. O meu voto não conta. Os betinhos safam-se sempre bem neste miserável país de caciques. Afinal todos temos de provar que não somos demasiado rurais, claro. So congratulations! You’ve got the President you deserve. 
Se o objectivo é dar mais argumentos para uso dos populistas, além do da corrupção, estais no bom caminho. (Por estes dias Marcelo Rebelo de Sousa disse, da boca para fora, como é costume, que Portugal tinha de ressarcir as ex-colónias. Como, quando e quanto, não disse. Quem é o melhor amigo dos jornalistas, quem é? Pois é.)
Gostaria, entretanto, de fazer um reparo. A escravatura não resultou das descobertas nem foi um exclusivo de uma cor de pele castanho, mais ou menos escuro. A ideia de que os homens são todos iguais, por serem “irmãos”, foi uma das mais revolucionárias da história e é bastante antiga. Contudo, só no século XVIII, com a Revolução Francesa, ganhou a força que hoje lhe conhecemos. Claro que do nascimento de uma filosofia até à sua plena instituição como verdade universal levou muito tempo e devemos continuar a lutar por ela, se a consideramos justa. Eu considero-a justa. Mas isso de agora termos de reescrever a história de acordo com uma nova elite é tão populista e racista como a glorificação contrária. As descobertas marítimas não tinham como objectivo inicial nem a colonização nem a escravatura. (A escravatura já existia e, na altura, para colonizar ilhas desertas tiveram de ir buscar gente à Europa central.) O objectivo era descobrir o caminho marítimo para a Índia e enriquecer. O enriquecimento de uns resultou na exploração de outros, sim, porque a elite da nação que promoveu as descobertas não se considerava igual aos restantes humanos, pretos, brancos ou azuis petróleo. A “desigualdade” é o que legítima as monarquias, ainda hoje. Um servo na Idade Média europeia, branco ou preto, era mais do que um escravo? Em África existia ou não escravatura antes dos tais brancos irem lá? Ou a história de África antes dos brancos não interessa a ninguém? Como pessoa de pele clara tenho agora de ser responsabilizada por crimes que a elite do meu país cometeu? Não serei responsabilizada! Essa é boa. Onde vão eles buscar o dinheiro? Aos seus bolsos? Vão arrancá-lo dos mosteiros da vitória? Eu sou pobre e pago impostos e taxas de juro altíssimas. Desculpem, mas não! Podem tirar das igrejas, dos palácios, dos museus, do raio que vos parta, mas vão digam que “os portugueses” têm de pagar o que meia dúzia comeu. 
Quantos aos brasileiros, os grandes exploradores foram os brancos que foram para lá, cujos descendentes ainda lá estão; ou lá, ou por aqui, hoje em dia, talvez até sejam meus vizinhos, eles mais meio índio e um quarto de africano. Talvez seja justo expulsá-los, aos colonos europeus todos! Não sei. E se você for um pouco nativo, um pouco europeu e um pouco africano, dividimos em três e mandamos uma parte para África, mais um lingote em ouro, outra retornamos à terra dos brancos, sem nada, e outra fica em casa. É muito simples. É só dividir e reinar.

Será que a Spirulina cultural engorda?

Como eu gostava de ser intelectual spirulina, mamute da bola, tuga tartaruga da margem Sul, hipopótamo do zoológico no Instagram, macaco de preço certo, x-ato de contrição de qualquer asneira que certeira me caia direita do céu azul ou estrelado, ou cinzento e chuvoso. 
Mas não sou. 
Era uma vez um moço com um extraordinário talento para o “esférico”. Talento nem sempre basta, mas neste caso veio acompanhado de respectiva ambição, espírito de sacrifício, persistência, resistência e uma vontade de escrever o nome na história sobejamente maior do que a do Vasco da Gama ou do Cristóvão Colombo. E como só vai parar quando Ele quiser foi para um lugar onde quem manda, faz desaparecer jornalistas em ácido sulfúrico, entre outras coisas, mas isso, claro, não tem nenhuma importância para a lenda dos tempos modernos, em que tudo está descoberto e feito, ao que parece, o cinema morreu e outros deuses se erguem, luminosos e sem necessidade de jornais ou tvs. Mesmo os não jornalistas passam a sê-lo e por isso ácido ou pedra nelas e nelas, que chova, deixar chover, “deixa a chuva cair, que o bom tempo há de vir” (Zeca Pagodinho).
Novelas terríficas e malévolas da SIC, TVI (RTP talvez), onde até se assassinam personagem creio (mas não mostram os tiros, deve ser mais com veneno) e programas de música sexista, no canal público, que promove a cultura monetária antes da hora do jantar, também com o seu convidado musical da boçalidade básica e bailarinas clássicas da perna portuguesa que inspiram os maridos a não mexer palha enquanto a Laurinda, a Teresa, a Maria, a Cátia e a Vanessa continuam a fazer o jantar, a dar banho aos garotos, talvez, ou aspirar cotão debaixo da cama; o mesmo desta tão bela cultura que perdura intacta desde o tempo da Antiga Senhora que, essa sim, é como os gatos. E elas estão felizes a ouvir a música, mas não gostam mesmo nada de ouvir falar mal de Deus. Não veem o esférico, a não ser a seleção especial, desde o tempo do brasileiro, outro grande crente, (nas bandeiras do chinês), e não podem ouvir dizer asneiras, mas só na Netflix, concordando, nesse ponto, com a classe da cultura spirulina, inodora e desenxabida que é a única “alta” cultura produzida em Portugal recentemente, mas não se importando, (tal como me parece a esses intelectuais inócuos, quando se trata de temas estritamente caseiros e sem impacto na atracção dos mesmo fundos de que vivem para fazer sei lá, escrever enciclopédias fechadas que “abertas seriam tão belas…”Hora Absurda FP) com palavras que só se podem traduzir em asneirada da grossa e do pioro, ainda por cima rebaixantes da condição de fêmea “passiva”, e por isso mesmo, e não porque a “a mente é perversa”, talvez sejam sempre sugeridas ao imaginário popular. Não bastará já? Não Basta Já? Será preciso cair? Estar sempre a cair? “Poça menino! Ora bolas”! Li algures que é isso que querem que digamos, lá os de Lisboa, os intelectuais spirulina, quando batemos com a cabeça num vidro do aquário e caímos de patas para ao ar.
Quanto ao deus português, “das portuguesas,” dos comentadores, e dos grandes adeptos das coisas divinas, li algures uma crónica a dizer que é imortal, um deus, portanto. Não sei se a crónica era uma tentativa de fazer poesia. Hoje, com tanto poeta spirulina, pode-nos acontecer isto. Creio que era má poesia e o homem, ou o deus, merecia melhor. Claro, não podemos querer tudo no mesmo século – um génio do esférico e um génio da língua! Outros no futuro talvez possam cantar com engenho e arte, o mesmo que teve o Fidípides do Atlântico, para lá de Gibraltar, que, como Ícaro, voou mais alto, como Aquiles foi aclamado entre os pares o invulnerável herói do rio Estige. O poeta da TSF (por acaso) esqueceu-se duma distinção básica dos clássicos, a distinção entre o herói e deus. Essa é a grande tragédia humana, e também a fonte inesgotável da beleza poética. The beauty is in the cracks – “There is a crack, a crack in everything. That’s how the light gets in” (Leonard Cohen). 
Talvez nenhum herói verdadeiro possa existir sem o seu conteúdo dramático, para verdadeiramente perdurar na história. É bastante irracional que assim seja, mas todos sabemos que não somos animais assim tão racionais quanto isso e, como é óbvio, durante a hybris nem o herói o nem o público reconhecem o inevitável páthos.
E agora faço votos para que os intelectuais spirulina sejam atingidos por um espacial meteorito redondo, nas nádegas, e saltem dizendo “ora bolas”!


Julho, 2023

Matar pode-se, curvar é que não

Convivi o tempo suficiente com pessoas do Leste da Europa para entender o significado de “curva guerra”. A ortografia não é a original, claro. Quando vejo filmes polacos não deixo de reparar nas legendas devidamente censuradas e politicamente correctas. Curva guerra mesmo! O pessoal lá da capital tem-se em demasiada conta. Às vezes a realidade é tal e qual essa, com estradas cheias de curvas e sem auto-estradas para o trabalho, o bem-estar, o sucesso. E outras vezes há guerra, o que seguramente é muito pior do que mandar tudo para o c. hipoteticamente. Aquilo na Ucrânia está a ir, literalmente.
Quem já não ocupa lugar nos nossos pensamentos e nas nossas traduções são os americanos e os seus ocasionais tiroteios. Sim, não há paciência. É quase todas as semanas a mesma coisa. Com a guerra e mais isso, não sei se o Telejornal é programa para crianças de vidro. Não é uma asneira nacional que transtorna a questão. Os americanos vão dar uma curva e lá estão outra vez a matarem-se uns aos outros porque têm armas e podem. E depois vão à CNN chorar e volta tudo a ficar na mesma. Para quem não sabe estão a ser estritamente liberais. Sim, o liberalismo económico não tem nem deve ter restrições morais. É só oferta e procura. O marcado balança tudo. Se há quem procure armas, há quem as venda. O liberalismo tem sim restrições de linguagem, porque é necessário traçar uma linha clara e precisa que separa os detentores do capital da inferior classe dos trabalhadores asneirentos. A regra é muito simples e direita, curva!


Maio 2022

Censo ou não senso

Acabei de responder nos censos que não oiço bem, mas depois, para não parecer atrasada mental, respondi que compreendia e me fazia compreender. Mas não é nada disso. Este questionário parece aqueles do “namaste” ou isso, em que vais encontrar quem és e no fim não tens por onde escolher e dizes – dá igual.
Eu oiço bem, mas, às vezes, sobretudo quando me telefonam, não entendo nada do que dizem, embora falem comigo em português, hoje em dia, normalmente. Como faladora para dentro que ainda sou às vezes, mal que tenho tentado corrigir, peço-vos – falai comigo ao telefone como se eu fosse brasileira ou espanhola (devagar e articuladamente). Agora, por vossa culpa, terronteses muito fortes, mas que nem sabem dizer de onde falam, quem são e o que querem de mim, vão dar-me como quase surda lá na estatística! 
Também disse que era católica, e sou, mas segundo os ensinamentos do maior representante regional da organização, não sou, e eu não sei quem tem razão. 
A seguir vieram as perguntas da matemática mais difíceis sobre metros quadrados. Já tinha respondido a um dos meus cunhados, que também gosta de métrica, que não sei, tinha de ir ver à pasta onde estão as coisas da casa ou ao site das finanças, grande trabalheira… é o que é.
Não gostei deste inquérito. Os da TAP e os da British Airways costumavam ser mais agradáveis e deixavam uma sensação final de dever cumprido. 
Pronto, está contada, mais uma portuguesa, quase surda, indo pelo cano, que vai à missa ao domingo de boca aberta e bichana coisas indecentes às escuras a um homem vestido com umas saias cheias de berloques e uma espécie de fitas muito douradas, trabalha numa loja e dos seis aos 23 anos andou a gastar o dinheiro dos pais e do Estado, uma pouca vergonha…
Com estes dados o nosso Governo vai agora dirigir melhor o país, de certeza.


Abril, 2021

Aos amigos de partidos políticos

Não consigo entender como pessoas que eu conheço, que nem devem ser pessoas cruéis, apoiam pessoas sem princípios, sem valores humanos fundamentais, valores como o respeito pelos outros. Por exemplo, sem respeito por pessoas que morreram, vítimas de execrável violência. Como se não bastasse isso, essas vítimas não são tidas nem achadas quando partidos políticos usam a sua imagem para fins de propaganda. Podemos ter opiniões diferentes, mas temos de manter o respeito por quem não se pode defender nem dar a sua opinião. É o mínimo. Quem faz uma coisa dessas revela não ter respeito por nada nem por ninguém. Não tem respeito pela vida dos outros, pelo que eles são, foram, desejam ou entendem. Como não respeita, pode usar, sem escrúpulos e com todo o “à vontade”. Revela bem o que vale, mas é muito triste; é muito triste ver tanta gente à procura de receitas simples para problemas complexos. É muito triste ver tanta gente que não raciocine. É muito triste ver tanta gente a procurar apenas quem lhes aponte os culpados dos seus problemas e, já agora, dos problemas do mundo também. É assustador que a mesmíssima fórmula usada pela propaganda nazi na Alemanha na década de 1930 continue a ser eficaz e a surtir efeito. 
Pergunto-me se no fundo tenho amigos cruéis, que desejam o regresso da tortura e da “frigideira” do Tarrafal. Os que não sabem o que foi a dita frigideira deviam informar-se. Hoje saber coisas custa muito menos do que custava antes. Nem é preciso grande esforço! Afinal até nos assinaram todos a ler, não foi?
Pergunto aos meus amigos, aos que garantidamente não são cruéis, se há alguma coisa que se possa fazer para evitar que as pessoas sigam estes novos líderes da idiotice, da malvadez, da crueldade e falta de respeito pelos seres humanos em geral?
Creio que tenho amigos de vários partidos políticos e isso parece-me bem. Mas uma coisa são ideias políticas racionais diversificadas e divergentes. Isso é democracia. Outra coisa são barbaridades que colocam em risco a democracia. A democracia não está garantida. A liberdade está em risco se gente sem respeito pelos outros convence muita gente com ideias simples e soluções fáceis – “É cortar-lhes as mãos”, “cortar-lhes a cabeça”, “colocá-los em campos de concentração” e fica tudo resolvido. Nas suas palavras bastavam duas panadas e Portugal virava um país virtuoso. Próspero, já não digo, mas virtuoso, aos olhos dessa gente, sem dúvida.


Maio, 2020

Aos arautos da mudança

Assistimos nos últimos tempos a pessoas, com estatuto e classe suficientes para terem uma voz nos meios de comunicação, de massas ou não, congratularem-se com uma epidemia que significa para eles o fim do capitalismo selvagem e do consumismo desenfreado. Dizem-no a partir de tecnologias que podem comprar, de casas decoradas com muita bugiganga artística, de janelas viradas para as estrelas. Faz-nos pensar que o equilíbrio, a esquerda moderada, é um resquício de intelectuais com boas intenções, em franco declínio. Não admira que os pobres, desiludidos e fartos, optem pela insanidade total, pela liderança de emoções como o medo e uma recompensa imediata de prazer libertário da ordem da razão e das regras de bom senso. Por outro lado, vemos gente com rendimentos a dar para o baixo e moderado aderirem a ideais americanos supostamente fundamentados na ciência evolucionista – a da sobrevivência dos mais inteligentes (outrora era dos mais fortes). Vivemos tempos perigosos e não é só por causa do vírus. 
Outra tendência é a da tentativa de libertação individualista de toda a sociedade moderna. Pessoas desiludidas, que não acreditam nem no mercado, nem na justiça, nem na humanidade em geral e muito menos na sua capacidade de organizar numa cultura harmonizada com a natureza, que abandonam ou limitam o convívio social. Abandonam a própria civilização e os seus confortos. Isolam-se em locais ermos que ainda existem no planeta e tentam viver como no paraíso, ou essa espécie de paraíso. São poucos, eu sei, mas entendo-os. A sua desilusão é a minha. Claro que as minhas comodidades são muito maiores, de momento. Valerão a pena? Que preço pago por permanecer em comunidade, contactável, classificável? 
Por outro lado, valerá a pena lutar por uma humanidade melhor, em harmonia com a natureza? Creio que é isso que os esquerdistas sonhadores do fim do capitalismo selvagem querem, mas sem perder a civilização. Ilusões como essa, de que a epidemia permitira os melhores de nós brilhar, sairmo-nos bem, encontrar soluções para viabilizar este ecossistema humano, tão densamente envenenado, não só de partículas poluentes da atmosfera, como de normas e ideais tóxicos que se infiltram nos nossos corpos naturais e os fazem funcionar à revelia de uma imensa vontade de correr pelos campos de Maio, subir o monte e deixar a natureza decidir. O que isto significa? Nada. Uma imensa desilusão com toda humanidade; uma humanidade que acha que a liberdade é deixar recados no Facebook. Eu também faço parte desta desilusão. Teremos de aprender com a tragédia, sim. Só que não é o universo que nos dará a catarse. Essa parte compete à inteligência humana.
O filosofo Alan de Button diz-nos que a meritocracia é um bom princípio, mas um princípio utópico e que temos de reaprender com a tragédia grega que nem tudo depende de nós, que a vida é mais complexa do que os defensores dessas ideias absurdas nos dizem para justificar a superioridade moral do sucesso. Não lhes basta serem ricos, querem ser ainda moralmente superiores…
A vírus não é o fim destas ideias, pelo contrário. Se sobrevivemos, somos mais fortes e mais inteligentes… além disso, agora que pessoas que pensavam pouco passaram a ter tempo para a introspecção, o que sairá daí não se prevê seja melhor ou pior do que aquilo que já lá existia, dentro de cada um. Não seremos melhores por passarmos dias fechados em casa se não compreendermos que nem tudo está ao nosso alcance compreender e moldar. Enquanto seres vivos, aquilo que nos define não é o que fazemos, mas o que somos nesta tragédia. A catarse será passarmos a agir não de acordo com o que temos de fazer para agradar aos outros ou aos deuses do mundo novo – ter sucesso poder e dinheiro e dar os sinais dessa grandeza – mas agirmos de acordo com o que somos, se o conseguirmos descobrir. Talvez haja aí alguma esperança, mas é pouca. 
O petróleo pode estar em crise, mas não a vontade de poder, a vontade de subjugar, a vontade de ser mais alto e maior do que os homens, a vontade de se libertar de toda a tragédia humana e tomar o céu de assalto. Somos humanos. 
Talvez sejamos capazes de verdadeira grandeza, mas isso é uma utopia, uma ilusão com que os falhados da vida se entretêm quando contemplam o cinturão de estrelas nas noites claras e sem lua.


27 Abril, 2020

Ética alimentar

A segunda vaga de corona vírus está a gerar algumas reações relativamente aos mercados de animais da China. Contudo, não houve propriamente uma adulta e articulada reacção dos líderes políticos de outros países (vá lá saber-se porquê). A reação é em grande parte daqueles que até agora mais têm contestado estes mercados, ou seja, os grupos de defesa dos direitos dos animais.
Quer venha ou não a provar-se que este vírus teve origem numa transmissão de um animal selvagem para um humano, num desses mercados, a existência destes espaços é repugnante, como são repugnantes as criações intensivas de animais, no Ocidente e no resto do mundo. 
Será então que teremos de nos tornar vegetarianos para cumprir com uma ética de causar o menor sofrimento possível aos outros animais, com os quais partilhamos este planeta? Durante décadas os nossos amigos vegetarianos tentaram convencer-nos de que comer carne é imoral porque implica a morte de animais que, tal como nós, humanos, sentem, têm o que se chama emoções. A corrente mais extrema deste movimento é o chamado veganismo. 
Apesar destes movimentos, a grande maioria das pessoas no Ocidente não é vegan. A recusa tem algumas razões culturais, mas também argumentos científicos. Alguns argumentam que os humanos são naturalmente omnívoros e que foi o consumo de grandes quantidades de proteína foi o que permitiu aos hominídeos desenvolverem um cérebro maior e mais complexo. 
Importantes vitaminas, como a B12, são quase exclusivamente encontradas em produtos de origem animal. 
A religião que guiou o Ocidente durante milhares de anos, o Cristianismo, tem por base moral o princípio da igualdade entre humanos, mas não entre estes e os restantes animais. A compaixão, ou empatia, o sentir o que os outros sentem e agir em conformidade com a ética de não causar um sofrimento que não gostaríamos de sentir, só se aplica aos restantes humanos e ainda assim não foi capaz de evitar sofisticados engenhos de tortura. Esta religião não impõe qualquer moral alimentar. Impõem períodos de jejum, como penitência, mas não dietas específicas. Em princípio um cristão pode comer tudo o que quiser, ou puder. Segundo o Novo Testamento tudo o que entra pela boca não torna o homem impuro, porque não lhe chega ao coração.  
Todos os animais excluídos da alimentação ocidental, como ratos, cobras, escaravelhos ou cães, são-no por tradição culinária. Pode dizer-se, com alguma cautela, que a maioria dos ocidentais cumpre grande parte das restrições bíblicas do Antigo Testamento, com exceção das carnes de porco, lebre e coelho. Ao mesmo tempo, o único inseto que o Antigo Testamento permite ingerir, o gafanhoto, é rejeitado.
No meio de muitas restrições alimentares, permitir aos Israelitas comer gafanhotos foi uma diligência divina importante. Em tempos de escassez, naquela paisagem do medio-oriente, gafanhotos é melhor do que nada. Deus não pretenderia só proibir e fazer uma lista de impurezas. Talvez quisesse manter a polução viva e saudável. Aliás, o Antigo Testamento tem grandes preocupações higiénicas que, infelizmente, os cristãos abandonaram.
Quando o cristianismo se espalhou pelo Império Romano, os povos que adotaram a nova religião puderam manter a sua ementa, da qual constavam coelhos, lebres e porcos. Tal como os humanos, o porco é omnívoro e não rumina. Muita gente não sabe, mas o porco come carne se a apanhar. 
A Noroeste da Península Ibérica são comuns os “verracos” (espanhol), ou berrões (português). Estas são representações megalíticas em pedra de porcos, datados do século IV ao século I a.C. Sendo esculturas pré-romanas, ninguém sabe exatamente o que significaram para os povos que as esculpiram. O que se deduz é que o porco era uma fonte de proteína muito importante para os locais. Não seria fácil ao cristianismo tornar-se a religião dominante se implicasse restrições alimentares do género. Note-se que, na altura, o cristianismo não só estava em plena expansão pelo Império Romano como era, ao contrário de séculos mais tarde, uma religião extremamente adaptável. Se é verdade que Jesus disse que não vinha para reformar as leis dos profetas, pelo menos permitiu-se mudá-las um pouco, fazendo convenientes adendas ao longo dos Evangelhos e somando algumas contradições. 
Os cristãos sempre puderam comer tudo, mas ainda assim permitiram-se selecionar alguns animais para transformar na sua principal fonte de proteína. Suiniculturas, vacarias, rebanhos de cabras e ovelhas, criações de galinhas para ovos e carne são as mais populares da indústria agroalimentar e espalharam-se por todo o mundo.
Entretanto, o que é justo e certo deixou de ser fundado em orientações ou ordens bíblicas. A indicação bíblica, segundo a qual nada se coma contamina o Homem, porque não lhe chega ao coração, não é exactamente verdadeira. Hoje, sabe-se, que algumas gorduras ingeridas chegam efetivamente ao coração dos humanos e fazem os corações doentes, cansados ou deixar de bater. Além disso, ao contrário do indicado nas Escrituras, nem todas as impurezas são eliminadas pelos intestinos. Por isso, uma das primeiras bases do vegetarianismo foi a controversa questão de se tratar de uma alimentação saudável. Perante a abundância e a explosão da obesidade, o fim do século XX foi fértil em dietas saudáveis, mas não há assim tanta ciência concreta a orientar a maior parte das opções. 
Ainda que os cientistas cheguem a acordo, o facto de um género de alimentação ser saudável não significa que seja ética. Aqui, os vegans dizem ter a última palavra, pois recusam-se a causar sofrimento. Numa comovente passagem do livro Homo Deus, Yuval Noah Harari descreve as condições em que a maioria dos animais domesticados vivem para que possamos disfrutar da abundância de proteínas que temos nos supermercados. Confrontados com essas condições, muitos de nós ponderaríamos deixar de comer carne.
Alguns governos, pressionados por movimentos de defesa dos animais, têm vindo a implementar legislação que não deixa apenas ao critério do consumidor e das suas capacidades económicas, a decisão de como criar animais. Também existem normas sanitárias na comercialização e locais próprios para o abate. 
Os defensores do liberalismo económico diriam que é errada esta intervenção dos estados. Mas, mesmo que não seja em defesa dos outros animais, alguma coisa os estados têm de fazer para nos manter vivos e saudáveis? Ou os estados só servem para nos ajudar quando chegam as pandemias e as crises financeiras? Claro que não desejamos um Estado que nos estipule detalhadamente o que podemos comer ou não, mas precisamos de uma norma que nos permita viver neste planeta sem continuar esta barbárie que são os mercados de animais selvagens da China e as explorações pecuárias intensivas do mundo inteiro. 
E, se temos dúvidas sobre se devemos comer carne ou erva, sugiro que comecemos por comer menos. Dir-me-ão que é difícil, eu sei. Quem sou eu para vos atirar pedras? Eu não sou ninguém, mas se não encontramos um equilíbrio no meio disto tudo, acabaremos por nos comer uns aos outros e continuar a destruir o nosso habitat. Sim, não é o planeta que temos de salvar. O planeta está cá há mais tempo do que nós. O que temos de salvar é a nossa forma de vida ou mudá-la de modo a ser um pouco menos violenta, um pouco mais humana, um pouco mais feliz para todos os seres vivos que aqui estão connosco. Ou não pode a felicidade ser a norma porque só poderemos ser felizes causando destruição e miséria em nosso entorno? Pois, mas um ser assim nunca passará de uma besta com os dias contados neste pálido ponto azul do vasto universo.


Abril, 2020

A burra do povo e o lobo

Não quero nenhuma alienação da propriedade privada por uma entidade a que se chama “Estado”, mas também defendendo que existe um custo para viver em sociedade e que só a justiça social, a escola pública, a literacia para combater a ignorância, o acesso à saúde, “um pouco” de igualdade de oportunidades” e todas essas retóricas velhas e gastas, podem resultar num “estado melhor das coisas”. Para mim isso era o significado da palavra progresso. 
No lugar onde nasci praticou-se, outrora, uma forma de “comunitarismo”. Não tão radical como outras formas, onde nasci existia propriedade privada e bens públicos, como a forja, o moinho, o rio, a água, as fontes, os sistemas de irrigação, mais tarde a escola, a casa do povo, o posto médico, a Igreja, o cemitério, as ruas, os caminhos e todas essas coisas que eram de todos, para as quias todos tinham de contribuir, com dinheiro ou trabalho, ou ambas as coisas, e eram administradas pelo colectivo. Lembramos que a terra, muito longe de Lisboa e a um dedo de Espanha, era portuguesa sobretudo por que os reis de outrora deram a esse povo a total liberdade de se auto-administrar, como entendesse, sem ter de lhe pagar impostos ou enviar os seus jovens para cumprirem serviço militar. Assim, durante séculos e séculos, viveram. Claro, isso implicou, por outro lado, algo mais duro e difícil, nunca estudado, assumido ou contado que foi a auto-aplicação da justiça; uma justiça que nada teve a ver com multas, nem riscos em varinhas de “condão”.  Se não sabeis como se faz, com o ser humano faz, nestes casos, vede um filme de cowboys.
Não é sobre a justiça entre “hobbits” que quero falar, é sobre a economia, um assunto mais debatido. Sim, havia propriedade privada, que alguns tinham e outros não, e apesar de muitos bens partilhados e de muito trabalho realizado em conjunto, havia algo que este povo dizia e que contraria em tudo a noção comunista de que a partilha de bens é algo que os seres humanos possam fazer eficazmente.  Segundo o ditado que ouvi, desde pequena, aos mais sábios dos antigos, “a burra de muitos, come-a a lobo”. 
O curioso é que a economia internacional e portuguesa são exemplos desta máxima. Podereis pensar que são economias meramente capitalistas, o que é mentira, porque, tal como o lobo, o ser humano não é um agente passivo da natureza, é um predador de topo.  Normalmente, quando a burra privada está muito magra e a ameaçar desfalecer, ela é nacionalizada, torna-se bem de todos, para que todos lhe levem feno; feno do melhor, de erva de trevo. Mas como passa a ser burra de todos, vem o lobo, come a burra, fica com ela na barriga, e o povo fica sem ela. 
Em Portugal, em tempo de burra comida, não se coibiu de aparecer a senhora muito magra, pois deve ser tendência ideológica nacional confiar mãos, dedos e burra a poucas tripas. Não serviu para mais do que, mais uma vez, colocar a culpa no sítio certo. Quando a burra é comida, de que quem é a culpa? Do povo, claro! Não é do lobo, nem dos administradores da burra, é do povo. 
A culpa da crise, tal como a culpa da ortografia é nossa, não dos nossos representantes, não das políticas, mas nossa. Não de todos, não nacionalizemos a culpa. Nacionalizamos a dívida, não a culpa. A culpa é de cada um de nós, individualmente. Coloco a mão no peito em contrição e digo sim, sim senhora!

Janeiro, 2019

Garrafas de água

Inglês: What are you doing with so many water bottles?
Eu: I’m freezing them to try to cool my room at night.
Inglês, ao telefone com a mãe: Why don’t you buy a fan?
Eu, sem vontade de o ouvir: I got a fan. I do not like fan.
Inglês: Forget mum, she’s crazy. My mother is asking if you recycle the bottles?
O que eu respondi: Yes.
O que teria respondido se ele fosse um residente da casa e não um convidado: No, I’m a filthy south European, we always drink water from the Thames and just buy bottles to take the piss and pollute your planet, not my planet, your planet.


Agosto 2018

Brinde aos capitães

A minha mãe diz que nasci em mau tempo! Sim, talvez tenha sido um tempo mal-azado. Um pouco antes ou um pouco depois teria sido melhor. Talvez. Não culpo o tempo. A culpa sempre ma coloquei em mim. Agora é certo que esta foi uma geração má, rasca, cobaia da liberdade e um pouco cobaia da falta dela, da liberdade. Uma geração que levou com a acção e a reacção na tromba. Mas na hora de escolher entre a servidão e a sargeta, na hora de escolher entre a vénia ao senhor do banco (literalmente, o homem de botins como nos livros do Eça, creio) e a emigração, foi a sargeta e o exílio, a sargeta e o mandar-vos à merda que este nascido em mau tempo escolheu. Obrigada capitães. No meu BI, cartão do cidadão ou passaporte, é com orgulho que exibo essa data mítica, 1974. Numa hora em que o mundo está bem f., importa pouco o ano em que nasci e onde vos mando, mas brindemos e saudemos quem passa e mandemos à m. o homem de botins e todos os perdigueiros portugueses e os leitões de raça pura e os que nasceram no tempo certo (ou seria na genologia azada e eu na errada?). Vá lá, brindemos, que só o que dá algum trabalho a levantar é o que vale a pena.


25 Abril 2017

Tenham medo

Tenham medo, tenham muito medo… Se ainda têm algo a perder, um resto de dignidade (dignidade, que raio é isso? Ideal de patetinhas? Todo o ideal é de tolos… As sociedades justas e solidárias são como os Centros de Atendimento a Toxicodependentes. Querem o Paraíso, doses diárias do “preconceito felicidade”? É uma ideia para fracos. Mas podemos controlar a adição para que o terror não alastre como uma peste na Idade Média, ou da pedra, ou do ferro), tenham mas é medo, muito medo… Eles vão reparar que vocês reparam que eles são chimpanzés quando caminham alegremente na vossa direcção. Eles vão ler na vossa cara o vosso pensamento e não vão gostar. Vão congregar esforços para vos deixar sem emprego. Já perdestes o emprego, mas ainda tendes casa, família e ligação à Internet?  Então continuai a ter medo. O macaco dominante pode tirar-vos tudo. E para quê mostrar o vosso nojo perante as carcelas escancaradas? Por que motivo o louco se debate quando lhe estão a enfiar a camisa-de-forças? Não vale a pena. Nada vale a pena. Fazei silêncio e sorride muito. Tendes que ser positivos, optimistas… lutar pelos vossos sonhos… que eles, os sonhos, pelas tardes da eternidade hão de tornar-se verdade só por sonhardes. Acredita em ti, ama-te muito e quando criticares que seja para a construção! Aplausos e gritos de júbilo – eis o último macaco, o macaco feliz, bem engendrado pela criação divina, politicamente tão correcto que não tem opinião política ou faz parte de uma J. “Que a tua crítica seja construtiva!” Toda a gente tem algo a perder, até pode ser só a vida… arrastar-nos-emos como símios-vermes pela lama para salvar o “indivíduo”, o gajo, ou a gaja, que há em nós, europeuzitos do fim dos tempos.


2013

A luz dispara

O senhor da Fundação vinha em nossa direção. Não trazia o costumeiro fato. Era domingo e veio de calça de ganga. Vinha acompanhado pela outra senhora da mesma empresa. Eu e, aposto, a RP da Casa da Música, de uma simpatia “in”, não pudemos deixar de reparar: trazia a braguilha aberta. De resto parecia gente que andou a tramar alguma. Bem, isso não nos interessa. O que interessa é que a luz dispara e que não deixou de me meter pelos olhos dentro o PC de Murça, onde fica a porca, não a ursa. De ursa fiz eu, a meter microfone e megafone à frente, porque era o ofício. Tudo certo. Mal pago, mas certo. O problema é o que se paga por tudo isto, e caro. Pior era levar com a palmadinha nas costas, como se eu, além da ursa, fosse o asno dessa constelação onde só estive de visita.


2013

Os empreendedores

Normalmente vestem fato, mas uma mulher olha logo para os sapatos… Há sempre algo errado nos sapatos. Pode não haver. Mas não custa muito adivinhar. Se o empreendedor leva gel no cabelo, cortado curto, bem se vê que vai empreender com o dinheiro de quem o tem para gastar. Tem vistas largas e dá largas a engenhos de trafulha que engana todo o burro que manda. Deve ser porque são todos homens, esses gajos que mandam no dinheiro.
O empreendedor segue, inexoravelmente, o seu destino. Tem tanta confiança, tanto prumo, que nada se lhe entorta e tudo segue o rumo natural que seguem as coisas em Portugal. Não sei para que existe este país, salvo porque a pátria tem esta língua. E de que nos serve isso? 
Sim, eu conheço o empreendedor. Já esteve aqui. 
Custa-me vê-lo, sempre com aquilo que parece o mesmo fato, o mesmo gel colado num quase não cabelo, seguir o rumo da vitória de tudo quanto é burlão neste país, ou neste planeta. Já não sei.
Lá andava ele, atrás dos altos dignitários da Fundação EDP. Sim, toda a gente paga luz, toda gente gasta luz, toda gente precisa de luz.
Nunca ninguém se importa de verificar o historial. Já sei a história. Chega lá com o seu ar de empreendedor, o seu rico potencial de curto pénis (parece), e pronto. Os outros homens gostam de ver o entusiasmo em outros curtos pénis. 
Dinheiro leva sempre, para ele e a gaja alta loira, ou morena, que anda com ele. Uma ou outra, são é todas altas, dos saltos, ou sei lá…


2010

Jornalistas de saltos altos

As raparigas lá estavam, uma loira, outra morena, a cobrir a manifestação, muito eufóricas pelo movimento. Os profes lá iam deitando um bafo que, mesmo de longe, não os faz simpáticos, como se o mau ambiente deixasse marcas, como se todos fossem trouxa morta, vapor de antidepressivo, gata malhada com tinta ruim no cabelo, falta de dentista, de esteticista, excesso de manicura… um sem fim de defeitos de massa, que transpira da multidão que ensina, ou não ensina. No meu tempo uma boa escola era uma escola fechada. Não sei! Não tenho que votar nisso, ou tenho? Não há solução. Sabemos o que temos que fazer. É fácil, neste caso. Duas fotos e três sons. Barato, mais do mesmo. Depois logo se vê, pagar impostos e ver TV. Mas, ao nosso lado, como se o mundo fosse quadrado, estala a discussão. Alguém toma sempre um partido e parte em frente, com a ideia feita, e mais do que maquinada, para corresponder ao ideal que, todos os que se têm em muita conta, têm dentro de si.
As raparigas engalfinharam-se em árdua discussão para saberem quem tem razão. A também loira malhada salta, em tom agressivo, que ninguém sabe nada, a não ser a sua cabeça iluminada. A morena falhada, estalactite da estrada, dá o tom de dinamite emproada. De peitos que metem respeito, em botas de lamparina, as moças têm uma razão que ninguém lhes tira. Todo o mundo é errado, se está do outro lado. A guerra armou-se por causa das falhas, na bolsa de malhas. Ou seja, dito isto, foi por causa do ministro.
“O que é preciso é intervir e não ficar à espera, lutar pela justiça”, diz a loira de excelência.  “A culpa não é das pessoas, as pessoas pagam contas, mas a maior parte é caloteira, menos eu”, finca pé a morena.
Ao lado, os professores, em uníssono, botam alto o refrão banal, sem nada de original. Neste acordo massivo, ao pé de mim engalfinha-se, numa má onda agressiva, sobre a razão e partido, a fé e o sentido, que todos temos de tomar, de manhã, ao acordar.
De regresso, mais uma vez, me vêm com lições de moral, sobre trabalho bem feito e jornalismo em cântico e português bem escrito e outras coisas que hão dito. A mim só me apetece perguntar: “mas que drogas andais vós a fumar?


2009

Gel de Banho

Bandeiras vermelhas e verdes ao largo. O horror a tragédia… não, não é um campeonato em que perdemos, como sempre…
Uma manifestação para que haja maternidade aumenta o grau do surreal. Com gel de banho regressamos à terra prometida, sem ideal nem esperança…
– Isso não é nada de jeito, eu já sabia! Só fiz para não ser má com o pessoal – dizia uma das jornalistas da manifestação, daquelas que só fazem as notícias que os outros fazem por solidariedade colegial, daquelas do topo da pirâmide alimentar, das “investigativas”. Enquanto isso, uma outra falava sobre a apresentação de um projecto de desenvolvimento regional, acompanhado de devido estudo prévio, tudo coisa para 1500 caracteres muito interessantes.
Nem mais nem menos e já está. 
A bronca começou por causa do gel-de-banho, que havia de ser mais barato em Espanha.
– Isso é uma ilusão. Não vale a pena. Um bom gel de banho é caro, em todo o lado.
– Não, não é! Eu sei o que digo. Estou farta de ir lá comprar gel e isso… e o que é preciso. Então o tabaco não se fala!
– Só se forem marcas baratas!
– E tu pensas que aqui compro marcas caras! És rica tu! Quanto ganhas?
– Olha o disparate! Pode ser-se pobre e preferir comprar qualidade…
“Queremos a maternidade, a Universidade, a auto-estrada e tudo”. 
Eu preferia o paraíso completo, bem longe desta merda. Sim, desta merda, ouviram? Nem sequer é merda de qualidade! Mais valia ir buscá-la a Espanha. Já meu pai dizia que para cagar de alto estão sempre prontos os espanhóis.
Maternidade forever…
Grande show. Saíram zangadas, por causa do gel-de-banho. Não se voltam a falar tão cedo, que assuntos assim são de vida e de morte, para sempre.
“Nós queremos parir aqui”!
Mas quem quer parir aqui? 
Bem, não faz mal, sempre dá para encher, é coisa para 1500 caracteres. Com um jeito chega aos 2000. E eu aqui. Maldito o dia em que nasci, não torne mais ao mundo e se tornar (Camões)…
Será preciso que faleis tanto?
Isso é coisa para mais de 1500 caracteres. Podemos também fazer uma reportagem para comparar preços. Claro, o IVA e isso tudo. Façamos um verdadeiro serviço para o público: comparemos preços (1500 caracteres) e nunca nos esqueçamos da voz do povo (enche muito mais, é coisa para quatro colunas com fotos. Isso “dá muita vida”).
– A menina, ou senhora, é jornalista? Olhe que não parece nada!
– Como?
– Não parece jornalista.
– Deixe lá, sou bem capaz de o encaixar em três colunas com foto, ou sem foto. Mas como é feio meto foto. Se se armar em parvo faço só uma breve! E sabe o que mais, vá parir! 

2006

Não é fácil

Começa por não ser uma opção. Nasce-se aqui, deste lado da fronteira espanhola e deste lado do mar. Não é coisa que doa quando se nasce e pode nem chegar a ser quando se é criança. Depois vai-se acreditando, com todo a força da juventude, com todos os sonhos intactos – os nossos e os que julgamos comungar com os restantes aqui nados e criados.  A dor vai-se instalando aos poucos – reagimos, mandamos calar os velhos, todos os velhos… e sonhamos, acreditamos em ser… em ser tudo o que um povo quer. Cada desilusão é um risco na nossa fé. Cada frustração é uma marca negra na nossa esperança. Os nossos sonhos pessoais grudamos no baú do esquecimento e, como se nunca houvéssemos sonhado, vamos vivendo, um dia atrás do outro, como dizem os saberes e os livros. No fim dos mês recebemos o salário. Depois gastamos o salário. Bebemos uns copos, comemos umas iguarias e ficamos a ver o baile que, invariavelmente, é composto por pessoas bastante anormais ou já muito alcoolizadas. Depois vem outro mês e ao fim de muitos vêm todos os anos… Queríamos só uma pequena alegria, uma grande alegria, uma bocadinho de fé… e lá estamos nós outra vez, embrenhados na esperança, a rezar por todos os poros da alma por tudo o que sabemos que nunca mais teremos… e que já nem sabemos, ao certo, se alguma vez tivemos. Aprendemos que não vale a pena ser optimista. Vamos para casa. Fechamos a porta e choramos, porque já não podemos mais. Passamos a compreender os velhos e aprendemos, facilmente, a maledicência. Como nos dói! Olhamos para as tabelas e lá estamos nós – em último, ou pelos menos a dar para o fim. Nada mais importa. Encolhemos os ombros, mãos na cara, não há mais fé, nem mais café – para ninguém, ouviram! Baixemos os braços e encaremos – é tudo vão, todo o sonho é vão… 
Bem sabemos como começaram a ser tolhidas, bem cedo, as nossas esperanças privadas, moldadas à tradição dos castradores, e daí podemos tirar lições para tudo o resto. Ninguém quer saber do nosso jeito, da nossa vontade, enquanto outros são levados ao colo. Mas não, não nos desculpamos e, durante muitos anos, ao acordar, todas as manhãs, sentimo-nos os últimos dos mortais – incompetentes, indolentes, idiotas. Mas haja razão! Não, a culpa não morrerá solteira, mas está comprovado, cientificamente, que não é minha. Vislumbra-se, no horizonte, uma oportunidade. Por vezes arriscamos mudar de vida, só por arriscar, sem acreditar e sem vontade. Há outras, mais esporádicas, em que dizemos – era mesmo aquilo que eu faria bem, melhor do que ninguém. É preciso não perder o pé. Estamos aqui, neste “nico” de terra, à beira-mar espetado. Na bandeja surge outro postal, apropriado para o local – mais um súbdito de um rei que vê numa terra de cegos. Sim senhor, não senhor – é para isso que servem os que sobem na vida à custa de outras coisas, para além da sorte e da capacidade. Quando são espertos, para além das boas maneiras, e já que perderam a honra, ao menos vão ficar com o bolo. Trazem por isso, uma faca escondida do bolso, estilo “palaçoula”. Também há os meninos bons – que são os do costume. 
Fecho a porta. Não quero saber. Não me telefonem. Não aguento mais. Tanto burro doutor, tanto senhor… A desculpa! Eles sempre têm uma boa desculpa, filosófica para ser bonita e ninguém a compreender, como ninguém a pode compreender. Aos leões – mandemos tudo aos leões, os empregados e os patrões, as esperanças privadas e colectivas, que já nem de esperanças se falava, mas de certezas e triunfos. Báh! Conseguiram – sim eu sou incompetente, um idiota, estou aqui com um discurso quase intragável e indecifrável. Chamem as vacas! Chamem os bois, pelos nomes, que eu não sei como se chamam esses cabrestos todos da manada, mas que aqui vai um gado, lá isso vai…
A ministra recta, correcta, que nos quer pôr a pão e água e nós até aceitávamos, mas mais uma vez é só para alguns – o pão e a água -, dá na televisão. Sempre a mesma coisa… sempre a levarmos nas orelhas… Ou é Carnaval ou é Quaresma! Mas só é para alguns, tanto a Quaresma como o Carnaval. Tudo porque alguém tem culpa, mas não está preso, continua lá e nós aqui. Que se lixe! Se em troca tivéssemos só uma alegriazinha – ser os primeiros, nalguma coisa! Sofremos por sermos de onde somos (e quem somos), porque sabemos, consciente ou inconscientemente, que já fomos, durante um mísero meio século muito distante (ou toda a infância), os primeiros, e desde então não temos passado do fim da tabela. Em vez de investirmos no nosso sangue, para ser grandes e ter alegria, damos cabo de nós todos os dias em favorecimentos absurdos e sistémicos a mancos de todas as profissões. Quando temos esperança, porque temos motivos, é morta por um bando de burros soltos das lojas, das universidades, das escolas, das máquinas, dessa maldita e inútil ganadaria. Desliga a televisão. Se quiserem acabar com ela que acabem! Não me perguntem a opinião! Não volto a votar… a votar em ninguém… ouviram? Não contem comigo. Sim, se houver guerra, talvez… Caso contrário não. Mas qual guerra! Guerra não haverá, mas se houver, podemos estar certos de uma só coisa – vamos perder. Chamem-me derrotista! Sim! Quero-vos contra mim a não a aceitar o que digo. Não é fácil perder toda a fé de uma vez! Coisa maldita! Não é fácil ser… português.


2002

Um minuto de insultos

Somos levados a pensar que o poder instalado na capital de Portugal, em Portugal, só concebe dois géneros de relação com tudo o que está à volta – o resto do país, a paisagem de Lisboa. Lisboa só concebe dois géneros de paisagem – a que é bonita, mas não existe, e o que lhe chama nomes e só por isso existe. 
Entre os nomes que se chama aos residentes na capital há os de diferentes graus de insulto e de diferente proveniência. “Alfacinha”, que não é um insulto, é uma auto-denominação de origem, está totalmente fora de prazo. Talvez eles ainda gostem de dizer que são “alfacinhas de gema” (frase que sempre me fez lembrar um prato com um ovo estrelado ao centro e uma folha de alface meio-molhada na gema), mas já ninguém gosta de lhes chamar esse nome.
Lisboa só reconhece como o “outro existente” aquele que é capaz de a situar ao nível do insulto, desde o mais banal “mouros”, ao insolar e insólito “cubanos do contenente” (continente). A capital deve-se perguntar: que mal terá ser chamada moura, ou cubana ou Maria? Não tem mal nenhum, moura, cubana ou Maria, fica a caminho da Tunísia, das antilhas, ou das ilhas. Não se ofende com os insultos, que no “caso cubano” atingem índices muito mais graves e ofensivos mesmo para o restante “contenente”. Mas Lisboa não se importa, até parece gostar e o resto do “contenente” finge-se surdo e faz de conta que nem estão a falar para ele, porque, ao certo, nem estarão.
O que é certo é que, ou mouros, ou cubanos, só tem a ganhar quem lhe chama alguma coisa. Deste modo passa a “existir”, e quem existe e berra, se não mete medo, pelo menos até parece que assusta. Quem só chora, está lixado, é tomado por “paisagem bucólica, ou romântica”, onde faz o ninho o rouxinol das eleições, que há de cair morto ao rio, ao primeiro piar dos mochos e corujas. Depois fica “o deserto”, para os lacraus e a reserva de todos os espécimes em extinção, incluindo os humanos. Às vezes a moira sai à janela e sacode a toalha, quando sobram migalhas, e o rouxinol magrinho lá canta mais uma vez. Outras vezes voam anjos com asas de denominação de origem para os lados do Tejo e prometem tornar-se cegonhas da terra natal, trazendo sementes de esperança em pacotes de obras a fazer. Logo lhes caem as asas e não passam, mais uma vez, dos anjos caídos do costume e da tradição.
Às portas do III Congresso da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, temos uma sugestão a fazer aos congressistas. Em primeiro lugar têm de deixar de ser congressistas e passar a ser activistas. O Congresso até pode ser uma coisa que parece bem, onde alguns transmontanos têm a oportunidade de “oferecer” (e mostrar) o seu intelecto. Este é o III e, se os outros não deram grande resultado, este até pode significar uma gota de água no “deserto”. Uma gota importante, já que parece que aqui há falta de água, e todas as gotas são importantes, sobretudo quando falamos da sobrevivência de líquenes. Não se trata de uma questão de sobrevivência, bem sabemos, mas de evolução para musgo. Congresso deve ser como está planeado, mas depois deveria terminar com uma atitude radical. Claro, sim, devem dar às escolas a oportunidade de fabricar uma “estratégia de comunicação e imagem para Trás-os-Montes”, politicamente correcta e tudo o resto. Vai ser “grande”, de certeza! Mas deveria ser também acrescentado “um ponto radical”, o principal ponto. Trás-os-Montes, bem sei, é uma região velha e cansada que não está nem para fazer body-jumping nem para se armar em palhaço no Carnaval. Mas também precisa de andar sempre a fazer de careto, que isso só intensifica a ideia de existência como “reserva cinegética e etnográfica”, que é uma maneira legítima de existir. Pensamos que até se poderia tornar uma reserva dessas, se fosse para ser a sério, e com direito a um “fundo de garantia ao careto”, que abrangesse todos nós, todos os “caretos”. O que quero é dizer é que Trás-os-Montes não pode continuar a ser demasiado idílica nem educada. Tem de passar a falar uma linguagem que eles entendam, e o tom dessa linguagem não é de choro nem é de canto, é de grito. Neste aspectos temos a oportunidade de ser verdadeiramente inovadores e inventar qualquer coisa diferente. A atitude tem de ser radical, mas bonita e o nome para chamar por ela tem de nos parecer ofensivo para ela parecer que acha graça. Depois, podíamos organizar realizações como: “um minuto de insultos” ou “nove semanas e meia de ‘slogans’.
Propomos a realização de um concurso de ‘slogans’ e de um concurso para estipular os novos nomes a chamar aos cubanos e mouros. Os prémios deveriam ser um fim-de-semana em Salamanca, bilhetes para um jogo do Real Madrid, com estadia em Madrid incluída, etc., tudo nesta linha espanhola. 
Os congressos podem não estar mal, mas atitude de gente que ainda tem sangue nas veias era um boicote generalizado nas eleições legislativas – se quatro deputados são poucos, não deviam contar mesmo. Era uma estratégia. Teria um impacto estupendo – as televisões viram cá todas fazer a cobertura e a cobertura da cobertura. Deste modo, de iluminação pública pouca mais tereis que a luz de uma candeia. Mesmo que venha a televisão, o país, ao ver-vos, enfadonhos, há de mudar de canal, como eu mudo quando oiço falar nos problemas de um inquilino num prédio de um qualquer subúrbio urbano.


2002

O jardim de camélias do bar do Partido Comunista Português

A varanda do PC dava para um jardim de camélias. Só conheci as camélias quando fui viver para o sul. Aqui não havia camélias. O “PC” era um bar onde íamos, porque era barato, e seria engraçado. Tinha uma moldura rectangular, com rebordo dourado, no canto da entrada, com a figura do Lenine. O tom de todo o quadro era dourado, um pouco desbotado – dourado a rarear. Sentada nas mesas velhas, nas cadeiras velhas, de ferro e imitação de madeira, olhei muitas vezes para a cara do dourado, impávido, desbotado Lenine, enquanto bebia uma bebida de indizível nome e sabor a sabão – penso que seria vodka limão. Por trás das portas, que eram também janelas, com vidros quadrados, havia uma varanda com um parapeito grosso, de granito claro, no qual nos podíamos sentar. Quando fazia algum calor as portas-janelas abriam-se para a varanda comprida, que mesmo não sendo demasiado larga dava para fazer uma esplanada. Aí passava a ser tudo dominado por um quadro de camélias – um jardim de camélias, que ficava por baixo da varanda do PC. 
O PC deixou de estar na moda, quando entraram na universidade uns jovens diferentes, que preferiam bares “bem decorados”, com tons cinzento-espacial, e com algum vermelho metálico, sem quadros do Lenine, mas com um rabisco de um qualquer improvisado artista abstracto e absorto nesta batida, que late sermos felizes, por sermos jovens e bonitos, talvez até ricos, com certeza bem vestidos, e estarmos aqui e termos uma colecção enorme de CDs e conhecermos muitas raparigas boas e conhecermos muitos rapazes “interessantes” e dançarmos… Bares onde as bebidas eram caras e as raparigas, bem vestidas e bem penteadas, se perfilavam em pose ao longo do balcão, com o copo na mão, as costas para trás e anca para frente. Não era como no PC, em que o balcão estava rodeado de gajos cabeludos e velhos do PCP, por entre os quais abriam alas raparigas mal vestidas, ou vestidas assim-assim, e mal penteadas, com as mãos à frente do peito, a pedir as bebidas. Não era costume alguém pedir água. Nunca vi ninguém pedir água. Quem não bebia álcool pedia sumos artificiais. E não, os sumos não vinham com palhinha para chupar, nem com rodela de fruta. Eram Sumol em lata, Coca-cola de garrafa, Jói ou Compal de fruta. Também havia comida, sobretudo batatas fritas de pacote, que tinham rifas, e ovos cozidos. No tempo das rifas, comiam três ou quatro pacotes, só pagando o primeiro. Havia sempre alguém com fome, para engolir os ovos. 
Da varanda do PC vi eu desfilar as minhas esperanças, para ser social, para conviver. Era bastante idiota. 
… aquele quadro iluminado de jovens, bebidas baratas e ovos cozidos, sob um jardim de camélias, num bar de velhos, antigos operários de fábricas de tecidos que deitam muita tinta e mancham os rios, militantes do PCP, vivos, mal vestidos, com poucos dentes… misturados pela sala, pela esplanada – os jovens sem partido nem fé e os comunistas velhos, entre as camélias e o Lenine. A geração que entrou depois tinha mais ideias políticas – eram belos e já tinham telemóveis. As raparigas passaram a vestir-se bastante melhor, mas os rapazes, tenho a ideia de que se pareciam menos com rapazes e mais com alienígenas andrógenos, vindos de outros planetas, (bring a gun) com cabelos outra vez curtos e ensebados de styling, e um vum, vum na cabeça, sempre a falar muito e a mexer com os braços, com a cabeça para trás e o peito para a frente.
O PC foi perdendo movimento. Nos últimos tempos, uns anos antes do virar do século, os velhotes estavam sós, outra vez, a jogar às cartas, sossegados, de olhar triste caído nos naipes, entre o baralho e os copos de Macieira, agora que os jovens se tinham ido embora e tinham deixado o bar igual, como quem passa sem deixar rastro. A esplanada das camélias jazia num sossego de “filme português”, quando o vento morno de Verão sopra devagar, sem fé nem partido.


2002

As tabernas de Espanha

As pipas são sementes de girassol e quando se comem muitas fica um sabor na boca semelhante a cheiro de taberna espanhola – um cheiro salgado, fechado, com um pouco de tabaco, um travo de galhetas, gomas, amendoins, bebidas “finas” em “copas” (copos pequenos) levadas à boca com veemência por espanhóis a falar muito alto a sua canora língua. No chão, imensas cascas de amendoim, de pipas e beatas de cigarros. Só em Espanha as tabernas cheiram assim. Minto, na fronteira, há uma taberna portuguesa, do lado de cá, com o mesmo cheiro. Foi a única que encontrei, mas não tinha tantas beatas no chão, nem restos dessas sementes de girassol que vinham dentro de um saco de plástico que tinha um touro preto desenhado por fora.
Não pensem que falo mal das tabernas de Espanha, que elas devem ser lembradas com carinho pelas crianças da fronteira deste país miserável. Eu lembro-as com carinho e, se ainda sinto aquele cheiro, toda uma memória de Espanha surge espontaneamente em mim; uma memória infantil, salgada e doce, e sempre plena de uma emoção feliz. 
Na ponta de lá do cumprido balcão de madeira onde os espanhóis bebiam e falavam alto e fumavam cigarros, estavam os portugueses que éramos nós e íamos comprar as galhetas de creme, a “nocilla” (Nutela – indisponível nos finais da década de 70 início de 80 nas mercearias locais de Portugal), os “melocotones” (pêssegos em lata), os chocolates possíveis, as azeitonas embaladas em sal e vinagre e as azeitonas pretas. Íamos a Espanha a pé e era uma alegria, porque na taberna espanhola havia sempre coisas boas para as crianças que éramos sem hipermercado. 
A primeira vez que fui a uma taberna de Espanha foi com o meu avô. Ele ia comprar tabaco e eu ia com ele, fazer-lhe companhia. Ele ia-me comprar um chocolate, claro. No caminho descansámos tantas vezes que eu já ia farta de tanto descansar. No regresso o avô arranjou um ramo a fazer de guarda-sol e lá vínhamos nós – uma criança muito pequena, que ainda não andava na escola, e um velho, alto e magro e um pouco curvado, com um ramo de carvalho numa mão e um saco de plástico, com tabaco, na outra.
Nessa altura já a figura do carabineiro era apenas uma sombra do passado; uma sombra de que se falava, mais para dar emoção à caminhada, talvez; mas uma sombra que não existia nem regressou. 
A partir desse dia fui muitas outras vezes a Espanha, à taberna, porque tinha provado que já aguentava o caminho. Íamos pela estrada, pelo caminho à beira das hortas e, ao virar a esquina, no monte, depois de subir um estreito carreiro, havia um marco, e do outro lado era Espanha, e ainda é, mas agora há uma estrada sempre a direito e o velho marco ficou meio-enterrado nela. Passávamos perto dos amieiros, que tinham boa sombra, passávamos o souto de castanheiros grandes, passávamos a ponte de madeira que não era mais do que um tronco sobre o rio, e depois a ponte de pedra que abanava. Na taberna, havia uma espanhola, com voz calma e lenta, que dizia ser nossa “parienta”, e por isso nos oferecia sempre, como “regalo”, um pequeno chocolate branco, com uma vaca por fora. Essa foi a primeira Espanha que conheci e tem um perfume peculiar, inesquecível e bom.


2001

Fundações da espécie

Quando sabem de onde sou, há quem me queira conhecer. Sou de um reino que faz parte dos clichés da ciência antropológica nacional, seja lá que ciência for essa.
Não é muito agradável ser objecto de estudo, digo-vos desde já. Mas agora nem estudo há. Só notícias de ocasião, doseadas de preconceitos, talvez científicos, mas certamente baseados em teorias feitas e pouco em realidades actuais concretas.
Fala-se então nos jornais e telejornais de horas idas, de recriações de tradições, para que não sejam perdidas, como se a recriação e respectiva emissão, não fosse mais uma espécie de perdição. Seria mais digno daqui, mais digno dessa alma antiga, que tudo fosse realmente perdido, de uma vez; mais digno que viver da recriação da tradição. Deve-se viver da vida e do modelo de que é feita. E hoje assim também acontece, mas esse modelo recria a morte, as horas passadas, ou apenas o pretenso bem que tiveram, como magia guardada nos brilhos da infância, que do mal não ficaram magoas na lembrança porque se recria na ilusão de um paraíso perdido, que afinal nunca existiu. É uma busca do “tempo perdido”, por incapazes de viver talvez o tempo real, tão vazio e distante da infância e das suas fantasias. É uma pátria infantil toda esta ciência, usada nos canais habituais; uso próprio de um país sempre ultrapassado.
Quando a tradição é viva e há quem viva de danças músicas e outras estrelas, isso é outra coisa, sempre pronta a renovar-se, a conservar-se e a avançar como particularidade cultural exemplar. O resto são mentiras. O que irrita são as recriações, todas essas falsidades, todo esse teatro absurdo de um povo velho e que da vida, da sua vida, só conhece o que lhe é transmitido, reenviado, por ciências, paciências, livros, romances, jornais, televisões e todas as mediações, para as quais vive a mentira, o teatro, a idolatria de um passado que nunca ninguém teve ou viveu, que foi apenas sonhado. 
Voltando ao assunto inicial, aconteceu-me uma vez, uma amiga minha, disse-me que tinha um amigo, licenciado em sociologia (mais uma ciência duvidosa) que gostaria de me conhecer pelo motivo de ser de onde sou. Fiquei abismada. A ideia de um interesse ser motivado por eu ser um espécime raro, um autóctone em extinção, colocou-me numa situação a raiar o absurdo. Não é que nunca ninguém me houvesse considerado interessante, pelos mais comuns motivos, que são sempre consideravelmente desinteressantes, visto eu ser uma pessoa vulgar! Perguntei se me queria tirar uma fotografia e se queria que levasse alguma vestimenta especial, embora não a tivesse. Por ter um espírito dado ao surrealismo, pareceu-me que um dos trajes que as raparigas tentaram angariar quando tínha aí uns cinco anos e as andei a acompanhar na sua ronda por casa das velhotas, me pareciam adequados para o singular encontro. Creio que queriam formar um rancho folclórico, as raparigas. Talvez na altura estivesse na moda, para ir sábado à tarde ao programa do Júlio Isidro, mas ao certo não me lembro. Só recordo a casa escura com arcas de madeira perfumadas de onde saiam umas compridas saias, de um preto aveludado, e outras de rendas brancas de neve, numas mãos igualmente de brancura extrema e gentil, apesar dos vincos na pele, mais irregulares que os das saias. Posto isto, creio que já explicámos que esta acção improvável, mas muito real, decorreu na “indígena” terra de Hispânia, onde antes da cruz se adorava o porco. Dizer que era portuguesa seria parcialmente errado, porque as tradições indígenas são anteriores à fundação da nacionalidade. 
Exagerei, claro. O jovem rapaz, queria só falar comigo, porque interessante era a cultura dos meus ultrapassados, seguindo a ideia, propagandeada, dizem,  pelo Jorge Dias,  de que havia num lugar perdido uma sociedade perfeita onde os homens eram irmãos e partilhavam tudo. Pareceu-me, no fim da conversa, que o rapaz devia ter simpatias comunistas, ou coisa do género. Se já havia ficado “desiludido” por uma visita que havia feito ao meu lugar, porque está sujo e feio, o que me envergonha, e sem ninguém, o que não me envergonha, ficou pior no fim da nossa conversa, porque, como sempre faço, por feitio e convicção, fiz questão de destruir, por completo, essa ideia do paraíso partido e do bom selvagem da ciência antropológica portuguesa.


2000

O Ciclo

Ciclo – era esse o nome da escola que veio depois da primária e era ainda mais violenta que a primeira. Ficava ao lado do café das glicínias e desse jardim decadente para onde íamos quando podíamos saltar o portão e passar pelo contínuo dos óculos graduados. Gostava mais de passar, como quem não tem nada a ver com isso, pela porta principal, a dos professores. Era sempre mais fácil. Estão agora a transformar o jardim em outro jardim e o ciclo já mudou de nome e de lugar, mas o contínuo sério da porta principal ainda outro dia me fez parar, para perguntar onde ia, e eu ia a uma qualquer conferência, destas modernas, que há nos auditórios por coisa nenhuma. Foi muito engraçado, olhar de novo para aquela cara séria. O contínuo da porta dos alunos tinha óculos graduados e pele vermelha. Suponho que se terá reformado. Os garotos punham-no louco, mas eu sempre o evitei. O da porta principal tinha muito zelo, mas era, e é, civilizado, à maneira dos contínuos, que hoje são auxiliares de educação, e auxiliam a educação de saber entrar e sair, e andar nos corredores, sem drama. 
Na aula de trabalhos manuais fiz um anjo de barro. Devia ter muito jeito para fazer anjos. Isso disse-me depois a professora do ano seguinte, quando passei para a turma dos melhores, porque exige a política dos números completar a coisa com os mais lavados dos pobres, creio. No primeiro ano era da turna “Z” de onde ascendi, tipo meteoro, para a “A”, sem eu na altura saber nada sobre o significado das letras das turmas, nem pedido nada a ninguém. Eu vinha de uma escola da aldeia. Apenas isso.
O anjo do primeiro ano ficou muito bonito e foi colocado numa estante, numa sala ao lado, para secar, com o meu nome riscado nos pés. Quando fomos buscar os trabalhos para “avaliação”, ainda não estavam cozidos, porque se havia forno não havia lenha… Eu identifiquei o meu anjo e apontei-o com o dedo – “é este”. A professora disse que não, aquele não era, que tinha outro nome em baixo – “ISABEL”, o nome da minha boneca loira, o nome das princesas… A mim foi-me atribuído o anjo que devia ser da “ISABEL”, a maior beldade do ciclo. Ainda anda por aí na rua. Quando fomos buscar os anjos, sem cozer, para levar para casa, o anjo que passou a ser da Isabel tinha a asa partida, e então regressou a mim e voltou a ser-me atribuído como meu. A professora, que também ainda anda na rua, não me pediu desculpa. Fez de conta que nunca tinha acontecido nada – nenhum vexame, nenhuma humilhação até às lágrimas, nenhuma solidão no meio daquelas selvagens a chamarem-me mentirosa… Mas tudo isso não me importou, como não me importou o facto de o anjo ter a asa partida. Fiquei tão contente por ter de volta o meu anjo, que era mesmo meu, porque fui eu que o fiz. Levei o anjo, sem cozedura, e a asa partida, para casa, com a intenção expressa de a voltar a colar, segundo as técnicas que tinha aprendido, mas isso nunca chegou a acontecer. Ainda esteve no vão das escadas durante algum tempo, o anjo e a asa, mas depois não sei o que lhes aconteceu e nunca mais o vi. O pior de tudo é que a escola deixou de ser ao pé do café das glicínias e do passeio manchado de gelados de máquina, mas continua a ser a mesma – a ter a mesma atribuição angélica. Pior que tudo é que nunca consertei as asas partidas.


2000

Professoras

Ramos de rosa oferecia eu às vezes às professoras, na escola primária. A professora recebia e agradecia, com um sorriso que não era de alegria. Fazia a cara igual à de todas as professoras quando um aluno lhes leva uma prenda sem valor extraordinário – “ai que bonito, que lindo menino.” Eu gostava de ver os ramos e de os poder dar, mas ficava sempre desiludida com a reacção à dádiva. Não era pelas palavras, ou falta delas, é que para mim as rosas eram muito bonitas e, portanto, deviam causar alegria, que se sentia, ao recebê-las, proporcional à alegria que eu sentia ao prender os pés espinhosos com uma fita e ver as coroas vermelhas juntas.
Agora entendo que a alegria causada por uma ramo oferecido depende menos das flores do que de quem as dá, e até uma figueira-do-inferno, nas mãos certas, pode enternecer o coração e fazer saltar o brilho de dentro de olhos apagados como os dessa professora.
As professoras não são fáceis de entender. Um dia, em que não trouxe rosas, porque nem as devia haver, estava com cara de quem tinha chorado, ou estava para chorar – a professora dos passeios no campo para desenhar a primavera, e das ideias, mas que também se armava em autoridade, quando lhe dava na telha – telhado vermelho, como a cara da professora, naquele dia da bandeira. Demorei muito tempo até entender o que tinha acontecido, e ainda não sei se entendi bem. Tive de ler umas coisas no jornal e ver uns documentários na televisão, décadas depois… A professora, nesse dia, quase como quem chora, ou a chorar, subiu até àquela haste que há na esquina das casas rectangulares que são escolas, e foi lá pôr a bandeira vermelha e verde, de Portugal, e se calhar um pano preto, já não sei. O que eu não entendia eram as lágrimas quase choradas pela tristeza da professora. Alguém tinha morrido, pelos vistos, e terei perguntado a um colega, se a pessoa morta era da família da professora, pois não sendo, não haveria motivos para chorar, pensava eu, na minha lógica fria de criança. O colega, sempre muito esclarecido, disse que não, que quem tinha morrido era alguém muito importante que se chamava Sá Carneiro. (Eu só me lembrava de uma canção estranha, que eu também nunca entendi, mas tinha ouvido lá em casa, sobre um “carneiro”, “que chateava muita gente”, e “de dois, que chateavam muito mais”) Por que era alguém muito importante e por que a morte de pessoas assim importantes fazia a professora chorar e esticar a bandeira foram dúvidas que fixei na memória, ao pé da imagem de quem vê de baixo a olhar para cima uma professora primária esticada, “moderna”, a prender a bandeira na esquina de uma escola primária, onde há rosas e roseiras, nativas e selvagens, cor-de-rosa, perfumadas, com picos pequeninos, dobradas em mil pétalas com perfume – rosa-choque, rosa-rosa, que não consta da bandeira inspirada nas roseiras de nossa casa – antes fosse assim inspirada, apesar de velhas, que o sangue que terá inspirado a verdadeira está mais desbotado que o tecido de chita das saias das raparigas mortas que as usaram, e os campos só inspiram aos do litoral pesadelos de eucaliptos e aos do interior sonhos de alcatrão.


1999