Lutar com moinhos de vento
Lutar com moinhos de vento
humano engenho de esventrar a terra
e eu aqui, olhando campos, amando campos,
não sendo nada
um breve sopro
uma beleza que cai
eu aqui lutando com moinhos de vento
gigantes engenhos que colhem o ar
e eu aqui
olhando a certeza de que a vida não é mais
do que um esgar
então porquê tanto sofrimento?
Para quê esventrar a terra e arar sementes?
Para quê lutar com moinhos de vento?
Fight with windmills
– human ingenuity to change up motherland…
I’m here, looking at the fields, loving the fields,
and being nothing
but a brief breath
a beauty that falls…
I’m standing here
struggling with windmills,
giant gadgets that harvest the air.
And I stay here
looking at the certainty that life is no more
than a grunt.
So why so much suffering?
Why dig up the land and plow the seeds?
Why fight with nothing else but dreams?
Maio 2020
Lutar com moinhos de vento I
Não vale a pena continuar a lutar com moinhos de vento. Temos de o admitir. Os moinhos continuam a ser moinhos e o vento é vento.
Por mais que ranjamos os dentes e nos deitemos a correr de espada em punho, por mais que queiramos cortar a meio o coração de gigantes e fazê-los tombar, nunca conheceremos o sabor da vitória, nunca conquistaremos para nosso o que é alheio.
À partida a derrota é certa – ou passamos a ver moinhos, ou continuaremos a bater-nos, ferozmente, por uma ilusão.
Agosto 2021
Quem me dera não ser humano
Quem me dera não ser humano, ser tudo menos ser humano
quem me dera ser a erva seca onde o gelo forma cristais
quem me dera nunca ter visto sol nem a sombra
com estes olhos…
antes ter olhos de lobo
e dentes para enterrar na jugular do tempo.
I wish I wasn’t human. Anything could I be but human
I wish I was the high grass where the ice makes its crystals
I wish I had never seen light or shadow
with these eyes
rather have wolf eyes
and jaws to clamp around time’s throat.
2 de Janeiro 2020 (Últimas versões dum tema antigo)
Auto-retratos
.Sardenta, magra o ano passado,
Olhos grandes, esbugalhados,
Joguetes de humano fado,
Orbitam nariz abatatado.
Incapaz de tranquilidade,
Nem na paz do encerramento,
Como em qualquer idade,
Companheira de tormento.
Devota dos meus amores,
Feroz só para dentro,
Sem fé em vossos favores,
Eis-me aqui neste momento,
Perdoados todos os frades,
Enterrado todo o talento.
2020
Pálida, quase magra, nariz crescente,
Pequena de pés, o mesmo de altura,
Serena de facha mas não de figura,
Olhos em orbita que não mente.
Incapaz de insistir em vacuidades,
Mais propensa à revolta do que à paz,
Nem sempre me julgando capaz
Desta submissão às necessidades…
Sem devoção por mundanas deidades
Nem jeito para incensar vosso talento
Estando-me nas tintas para frades,
Eis-me aqui neste momento;
Liquidadas todas as verdades
Alimentado créditos por tormento.
2017
Pálida, quase gorda, olhos castanhos,
Pequenos pés, pouca altura,
Serena de facha mas não de figura,
Nariz de entre os pequenos,
Incapaz de insistir no terreno,
Da vã vaidade dos cocktails
Continuo a acumular e-mails
De fonte onde não torno a beber veneno.
Sem qualquer devoção por sociedades
Nem jeito para incensar vosso talento
Nem no altar amando os frades,
Eis-me aqui neste momento;
Perguntando-vos as verdades,
Para as mandar gravar em cimento.
2014
Parafraseando Manual Maria Barbosa du Bocage, mas sem métrica. É aborrecida.
Auto-retrato por medida
Gordura cresce em míopes olhos,
Tranquila de facha e de figura,
Medra o nariz mas a altura encolhe,
Ainda pálida, rugas em folhos.
Tendo insistido em todo o terreno
Porque a vida me veio fora de mão,
Bebi de todas as fontes sem perdão,
Jamais pude evitar o veneno.
Ateia de mim desde tenra idade,
Tarde me tornei crente num momento.
Há muito já esqueci os tais frades.
Eis Preto, em quem luz algum talento;
Saíram dela mesma estas verdades,
Num dia que mandou lixar o tormento.
2025
Autopsicografia
Escritora quase imprimível,
Recomeçadora andante,
Dona de talento errante,
E feitio irredutível.
Não sei se vá ou se fique,
Se me estique na metade
Daquilo que será a verdade
Ou apenas um trambique.
Cansada da banalidade
Da sabedoria de arremesso
E de poetas a bom preço…
Recomeço porque aqui estou,
mas este passo que dou
seja passo de liberdade…
Janeiro, 2021
Quase citando, por ordem: Auto-retrato, Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 – 1805); Autopsicografia, Fernando Pessoa (1888 – 1935); Diário XIII, Miguel Torga (1907 – 1995)
Glosas ao “Poema Pouco Original do Medo” de Alexandre O’Neill
O medo abandonou as ambulâncias
A nossa terra é o hábito
O medo continua a ter
Bons empregos
Mas não o nosso
O medo tem heróis – imensos
Esgotos
Casas de penhor – muitas
Lábios grossos
Silicone – mais do que a medida
Botox – até não se mover centelha
Depilação integral
Bisturis completos
Salas de desmanche
Potentes aspiradores
Luxos vários
Muitíssimos amigos no Face
Biliões de “likes” no Insta
Ouvidos
Espiões
Seguidores
Corações e beijos
Smiles e Ghostings
E também o cansaço
Este cansaço do medo
Que manda o medo às urtigas
E os ratos ao comedouro
Londres 2019
O medo II
O medo mascarou-se de doutor,
Saiu à rua e a rua ficou deserta.
Depois do medo, só se veem olhos
e já ninguém tem medo,
a não ser de bocas e narizes fora das esplanadas.
Entretanto,
O medo perdeu o emprego.
Voltou a filiar-se em vários partidos políticos.
O medo nunca foi maqueiro!
O medo tinha muitas saudades da política.
O que o medo quer é voltar a mandar.
O medo estava farto das empresas e dos recibos!
Prestar serviços aqui e ali…
O medo também precisa estabilidade!
As empresas contrataram um medo estrangeiro.
O nosso medo vai a votos.
O nosso medo até pode ganhar.
Isso fará de nós ratos?
Certamente, alguns chegarão a ratos.
Portugal, Janeiro, 2022
O medo III
O medo anda sozinho
Já ninguém tem medo
E é isso que este medo quer
– Apregoar barbaridades
Assinalar inimigos (todos os “outros” que não “nós”)
Alarviar boçalidades sonantes
Soltar pregões na praça
Erguer bandeiras com cores “tradicionais”
Verdadeiras
Melhores
Conspícuas
Blindadas à prova de imperfeição.
Andava tudo cansado
Duma vida banal
O medo apareceu disfarçado
D’agente espiritual.
Mas não se enganem
Ele vai ter tudo outra vez
Os apartamentos
As casas pequeninas
Os automóveis de baixa cilindrada
Os nacionais e os estrangeiros
Nós e os outros todos
Todos os pobres e remediados (serão poucos os últimos)
O sistema nacional de saúde (o que resta)
O acesso universal à educação (já nem existirá)
A igualdade
A fraternidade
A liberdade
A democracia (essa mor meretriz na língua porca do medo)
A paz?
– Bem, há muito que medo tem a paz.
Quanto ao resto?
Havereis com certeza de coroar um rato.
Bragança 2025
As rosas perderam todas as pétalas
E então todas as rosas perderam todas as pétalas
e do chão subiram musgos e fungos e raízes e folhas mortas
e no céu rosado de Piemonte
a lua cheia, pérola longínqua, recolheu todo o meu olhar;
um olhar triste de pagã sem flores no regaço,
de mãos vazias, de mãos cruzadas em espinhos.
Será a vida só sofrimento?
Será a beleza só a do céu do ocaso de um sonho?
Então para quê sonhar?
Para quê plantar rosas e esperar algo que não seja a morte do sonho,
das pétalas tenras em vão coloridas de impossível?
E então no solo frio da rua estranha e amiga daquela terra
ergui em mim o que sempre foi meu
– O pendão da revolta – e parti
com a tristeza alojada no peito e desejo de voltar,
não pelo sonho,
pela paisagem,
pela lua
e pelas rosas,
floridas ou apenas vestidas de espinhos.
As paisagens, a lua, as rosas, os espinhos falam comigo.
Tudo o resto não é para mim.
20 Fevereiro 2022
Glosa à Liberdade III
Ai que prazer
Não ter de comer,
Em boa fortuna crer.
Comer é maçada!
Melhor é não mastigar nada.
O sol doira
Enquanto doira.
O rio corre, bem ou mal,
Sem dentes na marginal.
A brisa, de tão leve,
Nunca um dente teve.
Comer é coisa de animal,
Em tudo desigual
A ser livre do matagal.
Quanto melhor é, entre a bruma,
Esperar ser um deus de espuma,
Um mar de sal,
Uma lágrima de Portugal!
Grandes são os pasteis as natas e o presunto,
mas o melhor de tudo é não ter assunto.
Os dólares, as libras e os euros em tostões
E comprar o pão com os… cordões?
Melhor do que isto
É Jesus Cristo,
Que subiu ao céu em carne e osso
Sem constar que lá tenha comido um tremoço…
2020
Anti Ricardo Reis
Prazer, mas hoje,
Lídia, que a sorte é dos audazes, dizem,
Que da terra se arranca.
Espampanantes retiremos do horto mundo
Os doces pomos
Que a Erínis,
Que cada gozo trava, tem sono leve e fugidio.
De nada vale correr mansos e mudos
Nem gozar escondidos.
Gozemos canorosamente e agora,
Que amanhã talvez emudeçamos
E a inveja de tolos não nos tira a condição
De gozadores de prazeres meramente passageiros.
Esperar e gozar escondidos é sorte dos deuses, Lídia,
não de humanos.
Abril 2024
Inspirado no original de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa:
Prazer, Mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a Erínis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.
Quem me dera ser poeta
Quem me dera ser poeta,
Artista colorista, pintora de tintas profundas e sentidas, como o são sempre as tintas de quem só sente.
Sente, intimamente, sem pagar coima, sem prestação, sem juros, sem limites de pagamento, sem apertos no peito.
Sente a condição humana, sem marcas nas mãos e nos olhos, os olhos dos lobos e dos lentos, sem o selo marcado a ferros, o selo da necessidade, ou escravidão.
Quem me dera ser poeta e escrevinhar no caderno do tempo as íntimas balas do destino ou da escolha, que não sei qual foi, pois hoje quero apenas ser poeta. Eu não escolhi e a poder escolher, escolheria não sentir, ser lúcida e perfeita, capaz e automática, certa e racional, tenaz e inexorável; escolheria traçar um caminho de ferro, se fosse eu a traçar e a fabricar o ferro, nunca um caminho de flores totalmente inacessível para quem não nasce apenas poeta.
Quem me dera ser poeta, e declamar nos saraus dos municípios, nas feiras do livro, nas esquinas dos muros, em todo o lado, o profundo sentido de tudo, ou falta de sentido, a superfície de um lago fundo, num planeta improvável, belo até a beleza doer; um planeta fugaz, um pequeno paraíso temporário, onde uns seres que escrevem livros e poemas, criam música, e belos monumentos, também sujam e destoem, arranham a face da mãe terra, como gatos assanhados, tigres ferozes, alienígenas de um mundo hostil que é este também. Não o fosse e eu seria poeta, sem penas.
Julho 2024
Mulher
Não quero flores, flores nenhumas, nem rosas, nem gerânios, nem tulipas, nem estrelícias, quero a Liberdade.
Não quero cintos, nem ligas, nem espartilhos, nem burcas, nem burquinis, nem a hijab da nike, quero a Vitória.
Não quero concessões, aceitações culturais, credos aceites pelos que perderam o seu. Quero a aniquilação do mal, o fim dos sacerdotes.
Não quero as praças, as marchas, os exemplos, os deveres, as conciliações, as cotas, os debates, os compromissos e os deuses todos com nome de macho nos céus. Quero Tudo.
2017